Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 10, 2017

VIDA DE MÉDICO, um emaranhado de emoções

Trinta e dois anos de atendimento em unidade básica de saúde, e outros tantos vividos em consultório particular. Ao longo de todo esse tempo, marcas de experiências que engrandecem, e momentos de pura emoção. São muitos esses pontos, mas vou ficar com três, apenas.

O primeiro, no internato, sexto ano do curso de medicina. Participando do Crutac (Centro Rural Universitário de Ação Comunitária), na cidade de Santa Cruz-RN, como formando da UFRN, com outros quatro estudantes; o ano, 1971. No ambulatório, sentada à minha frente, uma senhora de cabelos grisalhos, de ar sereno, assim se expressou:

– Doutor, toda vez que me abaixo a mãe do corpo aparece; quando me levanto, ela se encanta. Um sintoma narrado em forma de poesia.

Tratava-se de um prolapso uterino contado da maneira mais bonita que até hoje escutei, e dito por uma pessoa simples de uma cidade do interior.

O segundo aconteceu durante minha residência de Pediatria no Hospital da L2 Sul, hoje Hmib – Hospital Materno Infantil de Brasília. Por volta da meia noite de um sábado, atendi um senhor muito nervoso, com uma criança junto ao peito.

– Doutor, fui visitar meu filho agora à noite e descobri que ele piorou muito. Veja, ele está verde!

Ao exame físico, intensa icterícia. No calor da madrugada, optamos – eu e meu preceptor – pela realização de uma exsanguineotransfusão, que consiste na troca lenta e sucessiva de pequenas frações do sangue do bebê por sangue compatível. O pai concordou prontamente em doar o sangue para substituir que seria utilizado, e o procedimento foi realizado madrugada afora. No dia seguinte, fui chamado para explicar para a polícia – no rol de entrada – o que havia acontecido com aquela criança, sequestrada de um hospital de Taguatinga. Após os esclarecimentos do sequestrador, este voltou no carro da polícia prometendo trazer seu filho verdadeiro. O fato é que na noite anterior havia confundido seu filho com a criança do berço vizinho, e a levou para ser atendida em nosso hospital. Imbróglio desfeito, o homem retornou ao hospital onde se encontrava internado seu filho, comprovando que a criança estava bem, e de alta. No nosso hospital, a criança com icterícia evoluiu muito bem e recebeu alta dias depois. Aqui, uma criança foi salva por um ato inusitado.

O terceiro foi aquele jovem chamado Oruam, trazido ao meu consultório por seus familiares como um paciente esquizofrênico com grande potencial de risco. Ao entrar, percebi nele um ar contemplativo, de serenidade. Pedi que os familiares se retirassem e seu rosto pareceu encher-se de paz. O jovem expressou-se com voz pausada, cheio de confiança:

– Doutor, eu apenas quero viver o meu sonho, e eles chamam isso de esquizofrenia. Tive que conter uma lágrima.

Três casos da minha prática clínica. Três emoções que resistem ao tempo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: