Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 23, 2018

MINHAS CINCO MÃES

Meu nome é Mirtes. Nasci no interior do Piauí há 57 anos. Meu pai, Manoel, era um homem espirituoso, engraçado, nascido em Araripina-PE. Casou com minha mãe Jandira, e o casamento evoluiu muito bem, com a rudez natural de meu pai e o amor incondicional de minha mãe aos sete filhos do casal.

Aos vinte e sete anos de idade minha mãe morreu, e meu pai falou que, para ele, o mundo havia acabado. No velório de mamãe, papai conheceu uma moça e logo perguntou se ela queria casar com ele. Combinaram o dia em que ele iria à casa da moça comunicar que iriam se casar.

No dia marcado, meu pai, conforme fora combinado, foi à casa onde morava sua futura esposa, sendo recebido por uma de suas irmãs, Lucinda. Todas as moças da casa eram conhecidas pela beleza. Meu pai perguntou onde estava Maria, sua pretendida, e Lucinda respondeu que ela não se encontrava no lugarejo. Meu pai, então, perguntou se ela queria casar com ele, e saiu dali noivo de Lucinda, e logo se casariam. Vingança.

Depois de algum tempo Lucinda engravidou e teve seu primeiro filho. Maria, sua irmã, foi para sua casa cuidar do recém-nascido enquanto Lucinda se recuperava do parto. Maria voltou para casa grávida do meu pai. O filho nasceu e ela sumiu da cidade, levando consigo a criança, de quem meu pai jamais teria notícia. Vingança.

Lucinda, aproveitando-se das viagens do meu pai, começou um chamego com o filho de uma irmã do meu pai; portanto, seu sobrinho. Os boatos se espalharam e Lucinda, envergonhada, fugiu de casa levando consigo os três filhos.

Ao chegar de viagem, meu pai tomou conhecimento do acontecido e foi em busca de seus três filhos. Ao chegar ao local onde eles estavam, encontrou somente dois filhos – um menino e uma menina -, e os trouxe de volta. Meu pai nunca soube do paradeiro do filho mais velho.

Logo que retornou, meu pai casou novamente, mas esta união durou apenas três meses. Então, pôs dinheiro no bolso, montou em uma burra e disse: Vou procurar uma mulher para casar. Encontrou Erminda, que era separada do marido. E meu pai foi pedir a moça em casamento. O pai da moça falou para o pretenso noivo que sua filha não merecia se casar, por ser uma pessoa muito má. Meu pai não deu ouvidos ao futuro sogro, e o casamento foi realizado. Dessa união nasceram quatro filhos. O pai da moça tinha razão. O casal se separaria anos depois. Erminda era uma mulher cruel.

Casou-se pela última vez com uma moça de 15 anos, com quem teve três filhos e ao lado de quem veio a falecer no ano de 2002.

Os sete filhos da minha mãe foram parcialmente criados por todas aquelas cinco mulheres, sendo amados pela primeira, nossa verdadeira mãe -, e maltratados por quatro delas. Uma chegava a esconder os copos para que não bebêssemos água e sujássemos a louça.

Manoel. Cinco casamentos. Seis relacionamentos. Dezesseis filhos; dois perdidos pelo caminho.

Hoje exercendo o cargo de procuradora federal, Mirtes ainda consegue rir de sua conturbada história de vida.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 


Responses

  1. vai gostar de casar assim!…Síndrome de St. Antônio casamenteiro.


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