Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 27, 2018

O SILÊNCIO DAS MURIÇOCAS

Nasci e vivi durante alguns anos em uma pequena cidade que fica na esquina do mundo, na região da Costa Branca. É ali onde o sol toca primeiro em seu domínio sul americano. Desde pequeno, quando estudava no grupo escolar, eu imaginava coisas quase impossíveis, como subir de avião e recolher aquelas nuvens que passavam faceiras pelos céus da minha cidade.

Ainda criança, como uma brincadeira, pensei em uma forma de me comunicar com algumas pessoas sem o perigo de ter meus escritos vazados, e vi-me envolvido no obscuro mundo da encriptação. Idealizei, então, uma forma simples e segura de me comunicar, ao criar um código primitivo que depois viria saber já ter sido utilizado por Celso, o todo poderoso imperador de Roma.

Em outro momento, já adulto, imaginando o universo dos pequeninos, penetrei no mundo nano. Na crônica Nanomedicina, o Futuro Chegou, enfoco os benefícios e os riscos dos nanoprodutos. Ali, um pouco do que nos espera nessa área do conhecimento. Em outra ocasião, em um texto sobre Ciência Noética – Ciência Noética, o Futuro da Cura ou Instrumento do Terror?– eu chamava a atenção para um mundo  de esperanças, sem esquecer os perigos que cercam este tema.

Porém dois elementos sempre me intrigaram: o silêncio e a escuridão. Minha  medida para o breu total acontecia depois das dez da noite – quando a energia elétrica era desligada – momento em que ela, a escuridão, em conluio com a cruviana e a serração da velha, apagava a cidade para os raros aviões. Ali, na esquina do mundo, o império dos grilos; se no inverno, também dos sapos.

Haveria um nível de ultra escuridão? A resposta é sim. O cosmo era totalmente escuro, antes e depois do Big Bang, que aconteceu há treze bilhões de anos. A luz visível aos nossos olhos somente iluminaria o cosmo passados 400 milhões de anos, com o esfriamento de uns 4 mil graus, permitindo que prótons, neutros e elétrons se aglutinassem em átomos neutros, o que coincidiu com o surgimento das primeiras estrelas.

Uma dedução elementar e antiga: a escuridão simplesmentenão existe; é criada pela ausência da luz. A quantidade de luz presente em um espaço define o nível da escuridão.

Do mesmo modo, haverá o silêncio absoluto, em que o ruído produzido pelo voo de uma libélula possa até nos apavorar, por sua intensidade? A entrada em uma câmara anecoica acústica poderia nos fornecer elementos para reflexão. Em uma dessas câmaras você pode se assustar ao ouvir com clareza os batimentos do seu coração, o ruído do sangue correndo em suas artérias cerebrais, o ronco da sua respiração.

Escuridão, ausência da luz.

Silêncio, necessário até no nível do cochicho das muriçocas. E somente até aí.

Os dois juntos, loucura.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 


Responses

  1. Nasci e vivi durante alguns anos em uma pequena cidade que fica na esquina do mundo, na região da Costa Branca.

    Caríssimo Evaldo: esta abertura foi de uma elegância difícil de se encontrar nestes tempos de seres humanos apressados.

    Prendeu-me até ao fim do relato.

    Abraços,

    P.

  2. COISA MAIS LINDA, EVALDO.

    UM SÍNTESE PERFEITA ENTRE CONHECIMENTO E SENSIBILIDADE…

    ABS, GENIBERTO

  3. Evaldo
    Teus escritos são sempre assim: revestidos de elegância e destinados a um rumo certo, nosso coração.
    Parabéns, amigo!


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: