Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 6, 2018

UM DIA DE CRIANÇA

Se eu pudesse, nem que fosse somente por um dia, poria minha vida em ordem, no que tange às reminiscências da infância. Hoje, já próximo ao fim da minha jornada, faria o mundo parar, retornaria no tempo e viveria um dia especial, com duas exigências prévias: gosto de cajarana e cheiro de oró. Ah!, e em plena maré de sizígia.

Pela manhã, vestiria uma calça curta, sustentada por suspensórios e, sem camisa, retornaria à Praia do Meio, bem no início da manhã, sentindo o toque da brisa em  meu corpo magricela, sob o intenso sol de março, com o cheiro de chuva trazido pelo vento que brinca de surfar sobre as ondas, fazendo a alegria de tainhas madrugadeiras. Na volta, caminharia pelas salinas de antigamente, com a visão distante de cataventos hoje espectros na paisagem de várzeas salitradas.

Ainda pela manhã, em frente à igreja, embarcaria em uma canoa e, aí sim, tomaria o rumo de Barra e Pernambuquinho, só para fazer inveja a um tal de Evaldo que hoje habita em mim. Na volta, passaria pela boca da barra para ver o mar de perto, fazer cócegas em sua barriga e fugiria, para que ele sequer suspeitasse de que fora eu quem o tirara do seu cochilo na sesta da preamar.

img_9842Foto Lucas Fonseca

À tardinha, usaria minha roupa de domingo, pensando em alugar uma bicicleta mequetrefe e passear pela Rua do Meio, até o final, na outra ponta, sem esquecer de passar brilhantina Glostora no cabelo, então farto e quase loiro. Na volta, passaria ao lado da igreja e visitaria a casa onde morei, revivendo a figura do meu pai atrás do balcão de sua bodega, e com certeza já imaginando coisas para a longa conversa à noite, em uma roda de cadeiras na calçada.

Caminharia despreocupado pelo Beco da Galinha Morta, na tentativa de dar de cara com um Zorro subnutrido e sem estilo que costumava aprontar uma zorra na saída que dá para a igreja, dar seu grito de guerra e em seguida desaparecer por onde surgira; o grande mistério de então. O herói mascarado só atacava à noite, lembrei agora.

À noite, andaria devagar, da pracinha até o Cine Coronel Fausto, pelo lado direito, curtindo cada fisionomia conhecida, e dando boa noite para todos, coisa que jamais fiz.

No cinema, qual o filme em exibição? Seria o que menos importaria. Compraria um ingresso colorido (azul, vermelho ou amarelo, naquela noite?) e esperaria a parada no meio do filme, onde uma bandinha tocava músicas de antigamente. Meu pai era um dos componentes daquele conjunto. No reinício do filme, um chicletes Adams na boca, guardando a caixinha para uma coleção sem futuro.

Pertinho das dez horas da noite, uma passada pela pracinha só para encontrar os retardatários conversando em pequenos grupos, aí incluídos os estudantes da Escola Técnica de Comércio, identificados por usarem uma calça cáqui com uma listra cor de vinho de cada lado da perna. Um charme. Mais adiante eu estudaria ali.

Voltaria para dormir em casa, agora em Brasília, porque já avisaram que a luz vai apagar.

É que já são dez e meia, e aparenta ser noite de cruviana.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. CARO EVALDO,
    UM POETA , TALVEZ BANDEIRA, JÁ RESPONDEU À SUA PERGUNTA:

    “escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
    quero apenas contar-te a minha ternura,
    ah, se em troca de tanta felicidade que me dás,
    eu soubesse repor, eu te pudesse repor,
    no teu coração despedaçado
    as mais puras alegrias da tua infância…

    ABS,
    GENIBERTO

  2. Muito bom, Evaldo.
    Só faltou registrar a “saudade da professorinha que lhe ensinou o be-a-ba”.
    Onde andará Mariazinha…? Assis Câmara.

  3. Ah, Evaldo!
    Quanta beleza no que escreves! Quantos detalhes ainda tão nítidos em tua memória!
    Impossivel não deixar rolarem as lágrimas diante dessas lembranças, majestosamente descritas, como se acontecidas no presente tempo.
    E se possível fosse voltar no tempo, vivendo a pureza dessa infância, semelhante à minha, (ou com ela compartilhada), “congelaria” para não ser extinta.
    Afinal, foram os anos áureos de nossas existências!
    ABS. extensivo ao amigo Assis, teu amigo Geniberto, e os demais leitores.


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