Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 12, 2018

UMA PSIQUIATRA EM APUROS

Um serviço de emergência psiquiátrica exige dos profissionais que ali trabalham, além dos conhecimentos técnicos específicos, um potencial envolvimento com a verdade do ser humano. A presente estória foi vivenciada por uma psiquiatra de Brasília que, recém-saída de sua especialização, trabalhou como plantonista em um hospital psiquiátrico no interior de São Paulo. Esta estória já foi contada aqui.

Certa noite, por voltadas onze horas, o hospital psiquiátrico foi avisado de que uma ambulância estava conduzindo um paciente bastante conhecido daquela unidade hospitalar. Jorjão era seu nome fictício; um sujeito forte, medindo um pouco acima de dois metros, portador de transtorno bipolar, que desenvolvera um surto maníaco. Em casa, descontrolado, batera muito no pai e destruíra quase todos os móveis.

A enfermeira chefe e o pessoal de apoio do hospital foram avisados. Em poucos minutos, uma ambulância adentrava o portão do estabelecimento, conduzindo o paciente. O veículo dirigiu-se para a entrada de um grande corredor, em um local construído para receber pacientes agressivos. O veículo parou, e a Dra. Lúcia logo percebeu o tamanho da encrenca. O paciente era tão grande que, do lado de fora da janela, somente se conseguia ver parte do ombro e do tórax . Então, iniciou-se um diálogo difícil e demorado:

– Oi, Jorjão, vamos descer para tomar um café?

– Se eu descer, vou quebrar tudo, inclusive a doutora!

E a conversa prosseguiu, com pequenos avanços e retrocessos difíceis de serem recuperadas. Uma hora e dez minutos depois, um acordo: Jorjão concordou em descer para tomar um cafezinho e conversar, porém com uma exigência: todos deveriam se afastar e ficariam apenas ele e a doutora, em cuja companhia ele entraria na copa. E mais ninguém. Proposta aceita. Já fora da ambulância, Jorjão gritou, com sua voz de trovão:

– Somente eu e a doutora!

O paciente e a médica caminhavam pelo corredor, cujas luzes iam se acendendo à medida em que os dois passavam. Nesse momento, a Dra. Lúcia arrependera-se do que estaria para acontecer, mas já haviam atravessado o Rubicão – alea jacta est,imaginou a psiquiatra. Ato contínuo, membros da enfermagem surgiram e aplicaram uma injeção especialmente preparada para aquele caso, composta de quatro tipos de medicação. Muita agitação. O paciente era forte em demasia, e difícil de ser contido. Aguardaram alguns minutos e a medicação não fez efeito. A médica reavaliou o caso e prescreveu mais um dos medicamentos. Em alguns minutos o paciente havia se acalmado.

Jorjão foi internado, permanecendo no hospital por cerca de três meses. Nesse período, falava com insistência no nome da Dra. Lúcia com os companheiros de quarto. A médica só atendia pacientes da emergência, e apenas em seus plantões noturnos. Por esse motivo, só soube da alta de Jorjão através do pessoal de apoio.

Passaram-se seis meses. A médica, na fila do Banco do Brasil, distraída enquanto conferia alguns papéis a serem pagos em seguida, ergueu o olhar e contou: havia duas pessoas à sua frente. Percebeu que, atrás, a fila crescera.

De repente, uma pancada forte e decidida em seu ombro. Dra. Lúcia virou o rosto e constatou a presença desconfortável de cinco dedos enormes e uma palma de pele áspera fazendo peso em sua pele. Assustada, virou-se para trás.

– Oi, Jorjão, como vai?

– Escapando, feito gás de cozinha! Por falar em cozinha, a senhora me enganou. E não se engana uma pessoa daquela forma, doutora! Eu saí da ambulância para tomar um cafezinho e conversar. Fique sabendo que eu nunca consegui esquecer o que aconteceu naquela noite.

Logo, um senhor ao lado apresentou-se como o pai de Jorjão, e a conversa ficou um pouco mais amena. A médica respirou aliviada quando foi chamada pelo caixa do banco.

Quando a psiquiatra, na saída, se aproximava da porta giratória, Jorjão, agora no balcão de atendimento, virou-se para trás e lançou, qual flecha mortal, um olhar 121 na direção da médica, que quase congelou, pois conhecia muito bem o seu sentido. Instintivamente, lembrou-se do Código Penal.

Não se engana uma pessoa daquela forma. Esta frase, proferida no interior de um banco, em uma tarde quente, ribombaria nas lembranças de uma hoje experiente psiquiatra.

Um paciente. Uma aprendizagem. Uma mudança radical. A verdade, sempre.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 


Responses

  1. UM TEXTO BRILHANTE, EVALDO.

    TÉCNICA DESCRITIVA PERFEITA.

    E UM CONTEÚDO E DESFECHO QUE FAZEM PENSAR.

    VALEU.

    ABS, GENIBERTO


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