Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 16, 2018

MÉDICOS À MODA MÉDICO

O atendimento médico de forma sistematizada teve seu esboço  em Epidauro, que fica a 180 km de Atenas. Ali foi criado o primeiro centro de cura da Grécia antiga, supostamente por Asclépio, o deus da Medicina. O centro de Epidauro era dedicado ao tratamento dos enfermos e à formação de iniciados. Esse trabalho decretaria o fim da medicina mágica e sacerdotal. Asclépio teria vivido no século VIII a.C.

Na asclépia, o ponto principal da consulta era o ritual da incubação. As pessoas que se sentiam doentes eram adormecidas com chás à base de ervas, no interior do templo sagrado, na esperança de que elas mesmas, à noite, descobrissem as razões que as fizeram adoecer, e Asclépio viesse ter com elas em sonho e, aí sim, indicasse a prescrição para a cura da sua doença. O próprio doente recebia a orientação que levaria à sua cura. O lugar onde o doente adormecia era chamado de kemiterio– as pessoas pareciam mortas. Daí, cemitério. Após a cura, o paciente escrevia seus sintomas e o tratamento determinado por Asclépio em uma tábua, colocava na sala das tábuas votivas, matava um galo em sinal de agradecimento e retornava para sua casa.

Depois de Epidauro, a asclépia de Cós era a mais famosa da Grécia. Ali funcionava como local de formação de iniciados. Foi em Cós que Hipócrates, considerado o Pai da Medicina, desenvolveu o seu trabalho.

Próximo dali, em Pérgamo, na Turquia, desenvolveu-se uma asclépia sofisticada, onde funcionou o primeiro hospital do mundo. Na entrada do túnel que conduzia ao hospital, uma pia de pedra mostra a preocupação com a higiene.

Foto do túnel de acesso ao hospital em Pérgamo, onde havia uma pia para lavagem das mãos. As melhorias são adaptações de hoje.

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Daí resultaria a valorização da consulta médica, em que elementos da propedêutica orientam o médico no correto exame do paciente, com influência determinante no diagnóstico clínico. O emprego racional da anamnese e do exame físico têm relação direta com o diagnóstico e o tratamento.

Na Inglaterra, um estudo (Hampton et al.) mostrou que a anamnese isolada era responsável por 82,5% dos diagnósticos, o exame clínico por mais 8,75% e os exames complementares por mais 8,75%. Estudo realizado no HCFMUSP (Rev Med – São Paulo, Isabela M. Benseñor) mostra que a anamnese é responsável por 40,4% dos diagnósticos, o exame clínico por mais 29,4% e os exames complementares por outros 29,5%.

Esses dados me trazem à mente o caso de um garoto de doze anos, corpo pesado, já com sinais de sobrepeso, que me procurou para uma consulta, levado por sua avó. Sentou-se e nada falou; apenas um olhar vago, fixado no desinteresse.

A avó, claramente acomodada com o nível de desenvolvimento neuropsicossocial do garoto, expôs as queixas daquele pequeno paciente:

– Doutor, meu neto bobou. Há uns dois anos ele foi ficando estranho em casa e na escola, foi se desligando das coisas e hoje está assim: bobou. Um menino desse tamanho, doutor, e não aprende – complementou a avó com ares de resignação.

Iniciei um exame físico detalhado, como sempre o fiz. Os ditames da propedêutica, hoje quase abandonados (inspeção, palpação, percussão e ausculta), eram seguidos com esmero pelos médicos da minha geração. O Cartão de Vacinação era sempre solicitado e analisado em todas as consultas. Daí o meu entendimento de que a puericultura não é outra coisa senão um atendimento pediátrico bem feito.

Como fazia com todas as crianças, passei ao exame otoscópico. Aí veio a surpresa. Os dois condutos auditivos estavam totalmente obliterados por cerume ressecado que mais parecia barro. Umedeci a paredede cerume e pedi para esperar, que eu o chamaria no final.

Novamente no consultório, providenciei a lavagem de ambos os ouvidos, de onde saíram aglomerados de cera ressecada. No meio da lavagem, o garotão explodiu em um grito:

– Vó, estou ouvindo tudo de novo!

E saiu do consultório eufórico, aos pulos, feito um cabrito solto no pasto, e sumiu no corredor. Apenas um exame físico completo bastou.

Um caso de baixa da audição com viés medieval que ceifou dois anos da vida de uma criança. Não foi solicitado sequer um exame complementar.

Um pouco à frente, o estigma de doente mental à espreita.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 


Responses

  1. Prazeroso e instrutivo esse reencontro com os inícios da prática médica e, mais ainda, com a sua oportuna intervençao que resultou em “salvar” um ser da surdez e mudez que predominam nos atuais consultórios médicos. Mas, o bom também, é que há um movimento se agigantando para se trazer à cena, o deus Asclépio.

  2. Que beleza, Evaldo. História e realismo constroem uma narrativa que recebo com a sensação de aluno.
    Palmas para o professor. Assis Câmara


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