Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 23, 2018

GREVE À MODA ARGENTINA

Semana passada escutei um casal de jovens conversando atrás de mim, e hoje trago ao conhecimento dos leitores deste blog. Vou chamar aquele rapaz de Marcelo. Era estudante de um curso na UnB, e recebeu uma proposta para estudar inglês nos Estados Unidos, mais especificamente em San Diego, na Califórnia. O objetivo era aprimorar seus conhecimentos naquele idioma, mas ficou em dúvida, que foi desfeita quando a UnB entrou em greve em seguida, no início daquele ano (1988, se não estou enganado).

Decisão tomada, trancou a matrícula na universidade e viajou para San Diego, onde passou os seis meses seguintes estudando e aprimorando o idioma americano.

Retornou no mês de julho, e percebeu que a greve estava prestes a terminar, após um período de radicalizações de ambos os lados. Interessado em continuar seus estudos, dirigiu-se à Universidade de Brasília para cancelar o trancamento da matrícula, o que  não foi aceito. Ele não poderia cancelar o trancamento da matrícula. Teve que esperar o primeiro semestre terminar, já no final do ano. Somente no final daquele ano, após a conclusão do primeiro semestre, ele pôde finalmente fazer sua matrícula para cursar o segundo semestre, que se iniciaria no ano seguinte. Um ano inteiro sem o direito de estudar, em função daquele movimento.

Preferiu fazer um esforço, junto com a família, e continuar seus estudos em uma universidade particular, tendo que abrir mão do status inerente a uma universidade federal.

E por que estou falando sobre isso somente agora? É que no mês de abril visitei Buenos Aires, em uma sexta-feira, e encontrei a Faculdade de Medicina daquela Universidade Federal em um movimento grevista.

Fac. Medicina

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Pensei um pouco antes de entrar no prédio, temendo uma reação hostil. Lá, a movimentação dos estudantes era de um ritmo frenético, com alguns alunos confeccionando panfletos, outros cuidando do balcão de informações tanto para o público interno como para os curiosos como eu, além de muitos do lado de fora, cantando e tocando violão, junto a uma pequena mesa, a parte visível daquela greve.

Perguntei qual a previsão de duração daquele movimento, esperando uma resposta que se moldasse às nossas experiências no Brasil. A estudante, ao saber que eu era médico, teve todo o interesse em mostrar o que estavam produzindo para continuidade daquele movimento.

Baseado em minha experiência por aqui, perguntei por que toda aquela agitação, se a greve teria tudo para se alongar. A estudante à minha frente teve uma reação de estranheza, e respondeu que aquele movimento grevista só iria até à noite do domingo. É que a partir de segunda-feira teria início o período de provas, e eles não queriam perder tempo. Não precisava estender a greve, pois  a greve havia produzido o efeito esperado, que era alertar a população para os cortes de gastos do governo com a educação.

Interior

Greve de estudantes. Aqui como lá, uma paralisação.

Aqui, sem previsão de término. Parece que os estudantes, por aqui, não querem estudar e os mestres não se interessam em ensinar.

Lá, a preocupação com os estudos, apesar da greve até o final da semana. E nenhuma parede pixada. Eles sabem que tudo aquilo é deles, não do governo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


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