Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 9, 2019

QUANDO A MÚSICA VIRA SONHO

Rodrigo é um médico clínico que ainda trabalha para o Ministério da Saúde, em avaliação de projetos. Formou-se em Belém do Pará; trabalhou como médico em Serra Pelada, onde enfrentou a bruteza da exploração do garimpo determinando  o comportamento do ser humano.

Sua vida profissional está recheada de eventos inusitados. Em Serra Pelada, foi chamado pelo dentista para testemunhar uma barbaridade: o pai de uma garota de 15 anos fora ao seu consultório pela manhã, pedindo que fossem extraídos todos os dentes de sua filha, que adorava uma chapa(prótese) na boca, como sua avó, e o pai havia prometido esse presente no dia dos seus 15 anos. A proposta foi veementemente rechaçada, e naquele momento o pai havia retornado para mostrar a adolescente com todos os dentes extraídos.

Em Serra Pelada o Dr. Rodrigo viveria uma das maiores comoções de sua vida. É que, sem jamais ter feito um procedimento cirúrgico (ali, havia participado de algumas cirurgias auxiliando o cirurgião). Naquele domingo o clínico geral viu-se obrigado a realizar a primeira e única cesariana de sua vida, em uma tentativa de salvar a vida do bebê e de sua mãe, em um plantão de final de semana, contando com a ajuda de um hematologista que chegara à unidade de saúde há dez dias. Auxiliando os dois, uma competente enfermeira e uma auxiliar de enfermagem.

Ao final da cirurgia, foram tomados por forte emoção ao ver o rostinho bonito do garoto, que descansava ao lado da mãe. Uma experiência única na vida daquele médico,  forçada por uma emergência obstétrica no meio da selva.

Porém foi em Brasília que o Dr. Rodrigo viveria sua maior emoção. Sua esposa estava em fase final de um câncer de mama. Decidiu levar seu violão para o hospital, onde à noite tocava e cantava baixinho músicas para passar o tempo. Sua esposa ficava calada, envolvida com a melodia e a voz do marido.

O quadro clínico foi ficando mais crítico, e a paciente já dava sinais de falência de suas funções vitais. No final da semana, pouco antes da meia noite, quase sem forças, ela sussurrou para o marido:

– Cante algumas músicas que marcaram a nossa vida -, pediu com dificuldade.

Rodrigo, embora cansado, iniciou cantando as músicas que embalaram o começo do namoro. Na sequência, cantou as músicas que ela adorava. Aqui e ali ela abria os olhos e sorria. Logo ela estaria em sono profundo.

No dia seguinte Rodrigo se deu conta de que sua esposa estava morta, com uma expressão de tranquilidade no rosto.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 


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