Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 15, 2019

UMA TRAGÉDIA MARANHENSE

No dia 13 de março de 1901, em Alto Alegre, município de Barra do Corda, no Maranhão, ocorreu um dos maiores massacres da história do Brasil.

No ano de 1895 chegava à região de Alto Alegre uma missão dos Capuchinhos italianos, composta por 12 sacerdotes, 5 leigos e 5 irmãs, que compunham um grupo de catequese. No mesmo ano fundaram uma escola para os curumins, como eram chamadas as crianças índias em idade escolar. As filhas de pessoas ricas e influentes de Barra do Corda e Grajaú eram enviadas para ali estudar. Naquela região havia 17 tabas indígenas.

Os missionários recrutaram crianças para o internato do colégio, e exigiam que os índios participassem de missas, terços, aulas de catecismo, além de impor os seus rituais e conceitos.

A tribo dos índios Guajajara, liderada pelo cacique Caiuré Imana, dividia-se em muitas tabas, cada qual governada por um chefe ou tuxaua, escolhido por sua gente, em razão da bravura, caráter e honradez.

Inconformado com os procedimentos dos religiosos, o cacique Caiuré convocou o povo da selva para uma reunião e, sob a forma de convite, convocou também os chefes Guajajara para discutirem alguns aspectos pertinentes ao destino da raça. No meio da festa, Caiuré bateu com os punhos fechados no peito e falou bem alto para seus irmãos sobre o seu plano de libertação. Falou que não era possível aturar tanto abuso praticado pelo pessoal da Missão estrangeira que tinha como objetivo escravizar a todos, tentando encaixar nas cabeças dos índios que deviam levar a vida de outra maneira, e não como era ou deveria ser. O dia marcado pelo tuxaua Caiuré para o ataque era 12 de março do ano de 1901.

No dia 13 de março, mal clareara o dia, Caiuré, assumindo o comando geral dos caciques ali presentes, ordenou a todos para marchar rumo ao povoado, disposto a matar os que não pertenciam à sua raça.

Os índios bloquearam todas as saídas das estradas, e sob o comando de Caiuré – Morte aos Cristãos!– tiros e flechadas foram lançados sobre os cristãos. A capela ficou cheia de mortos, bem como dentro e fora das casas, no meio das ruas, pelos caminhos. Na capela, no convento e no sobrado era onde mais havia mortos. Nem mesmo as crianças foram poupadas. Ninguém da raça branca. E ai daquele que quisesse salvar a vida de alguma pessoa!

Ao amanhecer do dia 14, Caiuré ordenou a remoção dos corpos, tentando livrar-se do mau cheiro, e mandou que fossem enterrados. Temendo que pessoas de Arroz, Pari, Preperi e Lagoa Cercada, comunicassem o ocorrido às autoridades, Caiuré ordenou que todos fossem mortos, e que o serviço fosse bem feito.

Notícias da barbárie chegaram às grandes cidades do Brasil, causando grande consternação. O Papa Leão II assim se expressou: São as primícias do século XX.

Representando as forças do governo, a tropa do coronel Pinto desfechou um cerrado tiroteio contra Caiuré e seus guerreiros. O Cel. Pinto mandou o Cap. Goiabeira seguir com parte da tropa à aldeia Canabrava, onde estava o tuxaua Caiuré, na esperança de salvar a sua vida e a de sua gente. O oficial e seus comandados mal puseram os pés nos terreiros dos casebres ouviram a voz de Caiuré:

– Malvado capital Goiabeira, não preciso mais de viver! Vou sair na tua frente… mata-me, se é esse o desejo de todos os brancos malvados. Mas fica sabendo que eu não tenho medo de ti, nem do Cel. Pinto. Capitão Goiabeira, faze como eu, aprende a ter coragem! Aqui estou desarmado… Aproveita e dispara tuas armas!

– Valente chefe Caiuré, não queremos tirar-te a vida. Desejamos apenas levar-te a Barra do Corda e a São Luís do Maranhão, onde o Governador tem poder para perdoar tudo, e logo te mandar de volta a esta mesma região, onde nasceste e tens vivido até agora. Ele poderá te dar uma grande faixa de terra demarcada, onde quiseres escolher, e ainda viver feliz com a tua gente!

– Não! Não me interessa conhecer Torreão da Costa mais de uma vez! Nem também me interessa ganhar de homem algum aquilo que já é nosso, e que Tupã deixou para seus filhos. Não quero nada. Apenas quero morrer!

Caiuré, mal acabara de falar, foi rapidamente dominado pelos soldados. Ao final, estava preso e algemado o perigoso Caiuré, o general da selva. No final do mês de maio, pela manhã, chegava o capitão Goiabeira, conduzindo à sua frente, em um cavalo baio, o cacique Caiuré. Ao chegar em Barra do Corda, ouviu-se a banda de música executar o Hino Nacional e diversos dobrados cívicos. Fogos de artifício pipocavam pela cidade. O velho canhão deu diversos disparos.

Instaurado o inquérito, Caiuré Imana foi o mais acusado. Condenado, depois de dois anos preso, o chefe Guajajara não resistiu às sevícias e morreu.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

(*) Texto integralmente baseado no livro Caiuré Imana, o Cacique Rebelde, do historiador Olímpio Cruz.

 


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