Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 24, 2020

LICENÇA MÉDICA, UM IMBRÓGLIO

Camilo era médico de uma grande empresa. Especializado em obstetrícia, ele era muito respeitado por suas ponderações pertinentes e muito bom senso em suas decisões. Certo dia, passando pelo corredor, foi chamado em uma sala, de modo informal, por um médico de outro setor, que participava de uma avaliação de saúde de uma servidora.

Na sala, o médico que o convidou, ladeado por outro médico e uma médica, todos seus conhecidos na empresa. Mesmo sem ter qualquer relação funcional com as pessoas daquele grupo, aquiesceu em participar da discussão, tendo em vista o estado avançado de gravidez da mulher sentada no outro lado da mesa.  Em um pequeno sofá, um homem acompanhava de longe a discussão.

O médico que liderava aquele grupo contou ao Dr. Camilo o motivo da reunião. É que alguns colegas de trabalho daquela senhora grávida informaram à direção da empresa que ela chorava pelos cantos, e algumas vezes saíra do banheiro com a mão no rosto, tentando dissimular um choro quase incontido.

Com base nessa informação, a diretora instituíra aquela comissão, formada por dois médicos e uma médica, para avaliar o caso e definir uma licença médica com o objetivo de afastar a servidora do trabalho e, a seu critério, submeter-se aos  cuidados de um psicólogo.

O Dr. Camilo ponderou com a servidora que ela deveria concordar em se afastar do trabalho, para cuidar de sua saúde. A jovem senhora discordou com rispidez a acusação de que estava triste, deprimida ou ansiosa. Ao contrário, encontrava-se em um grande momento de sua vida, muito feliz com o breve nascimento de seu segundo filho.

Frente ao impasse, o Dr. Camilo propôs à servidora sua concordância para que ele conversasse com seu médico obstetra e, dependendo de sua orientação, ela acataria  a decisão. Falou que sim, e forneceu o telefone do seu médico. O Dr. Camilo foi ao consultório do médico, que ficava próximo. O profissional disse que sua paciente encontrava-se muito bem de saúde e que aquela estória da tristeza, ansiedade e depressão não procedia, e que ele discordava da concessão de uma licença antecipada à servidora.

De volta, alguns minutos depois, Dr. Camilo passou ao grupo o posicionamento do médico, contrário à liberação da licença médica. Percebendo o impasse, o Dr. Camilo propôs que, tendo em vista faltarem apenas 22 dias para a licença da servidora, que ela permanecesse trabalhando, já que esse era o seu desejo.

Dias depois, todos os servidores daquela comissão foram demitidos, exceto o Dr. Camilo, que entrara naquela discussão por puro acaso. O homem sentado no sofá era, de fato, um policial, que conduzia um gravador no bolso. A gravação foi entregue ao presidente da empresa, que se apressou em pôr ordem na casa.

Alguns dias depois, o Dr. Camilo soube que a diretora odiava aquela senhora, e a queria fora da empresa a qualquer custo. Não a suportava, e deixou claro que no dia em que ela retornasse, respeitados os direitos previstos na lei, ela a demitiria.

Pelos idos de 2005, o uso da verdade a serviço da mentira, parafraseando Norman Meiler. Nos dias de hoje, assédio moral.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 


Responses

  1. FANTÁSTICO


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