Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 16, 2020

COMO NASCE UM CAMPEÃO

Natal vivia um período de efervescência social, com festas acontecendo nos clubes e nas casas. No início da década de 1970, as famílias com poder aquisitivo caprichavam na aquisição de joias, vestidos de festa e viagens. A vida universitária vivia uma fase de efervescência.

Mariana era uma legítima representante desse grupo. Casada, trabalhando em órgão do governo, marido advogado com fama local, dois filhos. A pessoa que trabalhava na casa da Mariana pediu dispensa do serviço e foi para o Rio de Janeiro, nos rastros de Beluco, namorado fogoso e matreiro.

Mariana estava em busca de alguém para auxiliar nos serviços da casa, que era grande e muito bonita. Com dificuldade de encontrar uma pessoa que se enquadrasse em suas exigências, a jovem senhora pediu a umas amigas para indicar alguém para trabalhar em sua casa. Helena indicou uma bela morena que ela conhecera na casa de outra amiga, com boas referências da dona da casa. 

No dia acertado, logo cedo chega Byanca, uma garota jovem, usando um vestido tipo cigana, no meio das coxas grossas, com uma blusa deixando prever dois maravilhosos seios, no limite do desassossego. Antônio, o marido, encontrava-se em seu escritório de advocacia.

Mariana olhou para a moça, convidou-a a entrar e iniciou o processo investigatório já conhecido da jovem candidata. Perfeito. Preenchidos os requisitos técnicos, partiu para as orientações formais. Mariana chamou a moça na cozinha e disse: 

– O dono da casa é muito exigente e conservador. Ele não gosta desse tipo de roupa; dessa saia curta e dessa blusa decotada. Por favor, a partir de amanhã você passa a usar roupas mais comportadas, porque o Dr. Antônio não tolera pessoas vestidas com esse tipo de roupa. Ele gosta de pessoas com modos mais recatados. 

E a moça desapareceu na imensidão da casa, demonstrando toda a sua experiência na arte da limpeza domiciliar, além dos seus dotes de cozinheira. Logo ela exigiria uma auxiliar, pensou.

Na hora do almoço, tudo encaminhado, pratos na mesa. Mariana, com o intuito de apresentar ao marido sua nova aquisição, chamou a Byanca até a sala de jantar, para servir o almoço. Quando Byanca chegou na sala, pôs as mãos nos quadris e gritou:

– Toinho, você mora aqui? Mas você nunca me falou nada. Ora vejam só, o Toinho Pé de Valsa!

Mariana, chocada com aquela descoberta, perguntou:

– De onde você conhece do Dr. Antônio?

– Toda sexta-feira a gente passa noite dançando no Araruna, que fica ali no final das Rocas, na Rua Miramar, no caminho da Praia do Meio. E ele dança muito bem! 

Byanca não terminou de servir o almoço. O Dr. Antônio, nas noites das sextas-feiras, passou a frequentar a casa do sogro, para jogar gamão, carregando seu sofisticado kit de apetrechos para charuto. Meses depois, com seu jogo refinado, Dr. Antônio ganhou o campeonato oficial de gamão do Ceará e de São Paulo, além de medalha de honra no torneio do Rio de Janeiro. Uma fera.

Dr. Antônio virou referência natalense no gamão.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

A Sociedade de Danças Antigas e Semidesaparecidas Araruna foi criada em 24 de julho de 1956, com o incentivo de Luís da Câmara Cascudo, o maior folclorista e incentivador da cultura do Rio Grande do Norte. 


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