Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 30, 2020

QUANDO LUTAR POR UM IDEAL PODE SER PERIGOSO

Imaginemos um médico obstinado decidido a demonstrar os erros que até então eram praticados nos ensinamentos de anatomia aos novos estudantes. Andrea Vesalius era assim. Passava longas horas no Cemitério dos Inocentes, em Paris, revirando ossos e frequentemente ameaçado por cães selvagens. Tirava corpos dos túmulos ou lhe eram dados após execuções públicas. Dissecava-os ensanguentando suas mãos ao manipular exemplares humanos infectados ou em decomposição. É que, àquela época, não se conheciam as doenças infecciosas, as bactérias e os vírus.

O trabalho era perigoso e insalubre, porém quando decidiu escrever, em 1543, o livro De Humani Corporis Fabrica, finamente elaborado em sete volumes encadernados em veludo de seda púrpura imperial, Vesalius pôde sentir toda a ira de seus pares, sendo  considerado um ignorante, ingrato, arrogante e impiedoso, e de estar envenenando a Europa com seu hálito pestilento. Tudo, supostamente devido a contestações que Vesalius fazia a algumas absurdas observações de Galeno, que afirmava que o fígado fabricava o sangue, que o útero possuía múltiplas câmaras e a hipófise lançava suas secreções diretamente no nariz. Face a todo esse jogo de ambições, Vesalius decidiu não mais publicar qualquer livro.

No contraponto, no ano de 1867 nascia em Varsóvia, Reino da Polônia, Marie Curie, conhecida como Madame Curie. Tornou-se cientista e física; naturalizada francesa, ela conduziu pesquisas pioneiras em todo o mundo no ramo da radioatividade, sendo a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel duas vezes. Foi também a primeira mulher a ser admitida como professora na Universidade de Paris.

As conquistas de Marie incluem a teoria da radioatividade (termo cunhado por ela), técnicas para isolar isótopos radioativos, além da descoberta dos elementos polônio e rádio. Ela também estudou as radiações emitidas pelos sais de urânio, descobertas por ela. Os termos radioativo e radioatividade foram criados pelo casal Curie para caracterizar a energia liberada espontaneamente por este novo elemento químico. Ao lidar com esses elementos, Madame Curie se expôs em demasia à radiação e isso fez com que ela desenvolvesse uma leucemia gravíssima, vindo a morrer aos 66 anos, em 1934, em um sanatório, na França.

Andrea Vesalius. Em pleno Renascimento, obscurantismo, ciúme e inveja no caminho de um pesquisador obstinado. Encerramento de uma brilhante carreira.

Madame Curie. Dedicação, pesquisas, desconhecimento dos efeitos da radioatividade, por ela própria descoberta. A vida.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN 


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