Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 7, 2020

NA PRAIA COM AS DIVAS

A água estava morna, o sol a pino, a areia branquinha. Praia de Canoa Quebrada, no Ceará. O carioca Andrade logo tratou de fazer amizade a partir da barraca que acabara de adotar. 

Na beira da praia, à frente de Andrade, três crianças aparentando ter entre oito ou nove anos de idade esbanjavam simpatia e disposição. A mãe das crianças, ali mesmo, exímia artesã, confeccionava pequenas garrafinhas de areia colorida que a todos encantavam.

Com seu jeito carioca de ser, Andrade tentou tirar a dúvida de sua esposa, que achava que as garotas eram irmãs.  E arriscou para a que estava mais próxima:

– Vocês três são irmãs?

– Somos, e gêmeas – respondeu com simpatia. – O que foi uma surpresa para Andrade, pois uma delas era menor que as outras duas. E o carioca insistiu:

– Quais os nomes de vocês?

A garota, com mechas loiras naturais, tipo reflexo, respondeu com um bonito sorriso:

– Eu sou Katrine, aquela que está na água é Katerine e a acocorada, brincando com aquele menininho, é a Nikole Kidman.

Durante a conversa, Andrade ficou sabendo que eram onze irmãos vivos, de um total de catorze, e que somente à noitinha retornavam para casa, que ficava um pouco distante.

– Vocês chegam em casa à noite e ainda vão cuidar da janta? – Perguntou o curioso Andrade.

– Não. Quem cuida da comida é minha irmã de catorze anos, a Katy Marrone. A janta já está pronta, quando chegamos à noite.

Andrade, até como forma de entrosamento, comprou algumas garrafinhas de areias coloridas da mãe das garotas. Esta, loquaz e bem-humorada, revelou que perto de sua casa mora um senhor que, ao se dirigir ao cartório para registrar seu filho, teve que enfrentar algumas dificuldades.

– Qual o nome da criança? – Perguntou o escrivão.

– Não sei falar direito, mas é o nome desse campeão de Fórmula 1… Michael Schumacher – Disse com certa dificuldade.

– E como se escreve? O senhor trouxe escrito em um papel?

– Não.

– Então não vai dar para fazer o registro hoje, porque eu não vou escrever o nome do garoto de forma errada.

– De acordo – Disse o pai do recém-nascido. – Eu vou falar com um rapaz que mora perto da minha casa, e que é letrado. Ele escreve o nome da criança num papel e eu volto amanhã. 

No dia seguinte, chega o pai e procura novamente o escrivão.  

– Eu falei com o rapaz, e ele disse que domingo tem corrida de Fórmula 1. Ele vai copiar o nome o piloto diretamente da televisão. Na segunda-feira eu volto e a gente faz o registro.

Imagino que Michael Schumacher seja, hoje, um rapagão, surfando as ondas de Canoa Quebrada, como seus amigos.

Uma família tranquila, com a leveza das marolinhas da beira do mar.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Texto já publicado neste blog, com outro título e outra configuração.


Responses

  1. Soube, em 2005, de uma dissertação de mestrado, não sei onde foi defendida, parece que era de sociologia, que tratava dessa mania de colocar nomes estrangeiros nos filhos. Nos anos 70 isso foi moda na classe média alta. Depois, os menos escolarizados começaram a imitar. Foi quando começaram a surgir MAICONS, DAIANAS, etc. A partir daí a classe média alta voltou aos nomes bíblicos. É só olhar em volta os nomes dos nascidos nos anos 2000. Tem muito Pedro, João, Antônio, José, etc.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: