Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 12, 2020

ATROPELEI UM FANTASMA

Ela sabia que não era para sair de casa naquela noite escura de um ano da década de 1970. Já passava das onze horas, e o pessoal aguardava sua presença para a festa de confraternização da empresa. Mesmo sua mãe avisando que aquela era uma noite da cruviana, Lucy saiu de casa sem demonstrar qualquer preocupação. 

Saiu do Lago Norte, em Brasília, fez a volta para acessar o Eixo Monumental Norte, que a levaria ao restaurante onde rolava a festa. Quando reduziu a velocidade para entrar na tesourinha, sentiu uma pancada forte na lateral do carro. Estava um pouco escuro, e ali não havia ninguém. Mas o barulho foi intenso e surdo, como se jogassem um saco de frutas sobre o veículo. Andou uns cem metros, parou e deu uma olhada em ambos os lados do carro, pelo retrovisor. Algo lhe pedia para retornar. 

Em casa, todos se surpreenderam com sua chegada repentina, e Lucy foi logo dizendo, com ar de brincalhona: “Atropelei um fantasma”! Contou que sentira uma pancada na lateral direita do carro, mas que nada de errado havia com o veículo.

Todos já se preparavam para dormir quando ouviram gemidos estranhos vindos da garagem, como um animal ferido. O irmão Otávio, mais corajoso, assumiu que iria lá fora ver o que estava acontecendo. O resto da família ficou olhando por uma janela estreita que dava para a garagem. 

O irmão acendeu as luzes e deu de cara com um homem na carroceria, contorcendo-se de dor, aos urros. Na mesma hora levaram o ferido para o pronto socorro, sem que ele falasse uma palavra. Só urrava. Não possuía documentos. Ganhou até um novo nome.

No dia seguinte retornaram ao pronto socorro e o homem já se encontrava em melhor estado, movimentando-se na cama e ensaiando caminhar. Três dias depois o homem estava de alta. Continuava sem falar uma palavra.

Foi aí que surgiu o problema. Para onde levá-lo? Sequer sabiam seu nome ou o local de moradia. Colocaram o homem na caminhonete e o levaram para a chácara da família, onde ficou em uma espécie de chalé confortável, utilizado pelas visitas.

Logo o homem se recuperara totalmente e passou a ajudar o caseiro nos trabalhos com a terra. Gostava de cuidar das plantas. 

A família publicou a foto do homem no jornal, a televisão contou o fato, mostrando o homem para os telespectadores, e nada. Não havia uma só informação que pudesse ajudar em sua identificação.

A última notícia que tive desse senhor é que ele se comportava como pessoa de boa índole, trabalhadora, responsável. Mas continuava na chácara, sem falar nem escrever.

Uma noite confusa, dominada pela aura da cruviana. Um homem sozinho, sem rumo. Um final de vida confortável, apesar de tudo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Parece roteiro dos irmãos Coen.

  2. Essa crônica me fez lembrar um acontecido em Areia Branca. É um pouco diferente, mas, quando comecei a ler veio logo a tona. Areia Branca não tinha hotel. Os marítimos que não tinham familia ou amigos para os abrigarem para dormir, a maioria voltavam à tarde para o navio na última viagem da Lancha São Salvador. Um belo dia, um marítimo bebeu demais e perdeu a Lancha. Caiu a noite, sem dinheiro e sem onde dormir, pulou o muro do cemitério e dormiu tranquilamente em cima de um túmulo. Pela manhã acordou com o grito de um rapaz que vendia pão num balaio que carregava na cabeça. Foi então que o marítimo subiu no muro e gritou, ei rapaz me vende um pão ai. O coitado ouvindo aquilo, largou o balaio no chão e correu até a padaria do Sr. Lalá, esbaforido dizendo que uma alma tinha saído do túmulo e queria comer pão. Logo depois o marítimo que sabia de onde era o pão, levou o balaio de volta para a padaria.
    Que Deus abençoe a todos.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Categorias

<span>%d</span> bloggers like this: