Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 20, 2021

ERA UMA VEZ UMA MANGUEIRA FEIA

Jacinto espalhara pela cidade que seu vizinho era ruim dos miolos. Ele percebera que o novo morador da casa ao lado falava com as árvores do quintal. Todos os dias ele ouvia elogios às árvores, e apenas uma vez escutou um grande esbregue, aos gritos, em uma jabuticabeira.

Na cidade havia um pequeno horto florestal, que era visitado por poucas pessoas. As folhas acumulavam-se no chão, e causavam aquele barulho característico quando se andava sobre elas – slash, slash, slash. Naquela tarde, era Angelino visitando o horto pela segunda vez, e caminhava em uma área repleta de mangueiras. Naquele setor só havia mangueiras, e o cenário era bonito. Os frutos brotavam das pontas dos galhos, e o velho bibliotecário – esta havia sido sua profissão – logo percebeu que cada árvore parecia caprichar na apresentação de seus frutos, e os exibia com orgulho. 

Caminhou lentamente entre aqueles grossos troncos, percebendo as claras diferenças entre os diversos tipos de mangas ali presentes, e sentiu saudade de sua infância no sítio dos pais. Parou em frente a uma árvore frondosa, de tronco grosso e casca mais espessa, e percebeu uma diferença, e ficou tentando descobrir o que fazia aquela árvore no meio das mangueiras.

– Por que você fica olhando pra mim desse jeito? Não vê que eu nasci com defeito, que sou uma mangueira doente?

Assustado, Angelino olhou demoradamente para aquela árvore, com uma dúvida: ela havia falado com ele, ou teria sido apenas imaginação? Aguçou os ouvidos, e com ar paternal, correu os olhos por toda a árvore, desde o solo, passando pelo seu tronco; examinou seus galhos e folhas. E, num misto de pai e cientista, falou:

– Não vejo nenhum defeito em você -. E teve a impressão de ter ouvido de volta:

– Se você olhar direito, verá que todas as outras árvores têm mangas em seus galhos, e nos meus há uns calombos ou pólipos junto ao meu tronco. Todos os anos tenho que fazer um grande esforço para que esses calombos murchem e caiam, impedindo o seu desenvolvimento. Não sei mais o que fazer; até minhas folhas são diferentes; as flores, nem se fala!

 Angelino alisou carinhosamente o tronco daquela árvore triste.  Pegou na mão o que ela chamava de calombos e logo percebeu que ali havia um mal entendido.

– Minha filha, você é uma Jaqueira! E uma linda Jaqueira. Esses calombos que você diz ter no tronco são seus frutos que, se você os deixar crescer, estarão entre os mais gostosos deste pomar. Você nasceu e cresceu no meio das mangueiras, o que a levou a pensar ser uma delas. Perceba que suas folhas são diferentes, porque são coriáceas, com consistência de couro, enquanto as folhas das mangueiras são lanceoladas, parecidas com a ponta de uma lança, embora também tenham consistência coriácea, dizia Angelino quase gritando, de tanta euforia. 

Já era quase noite quando Angelino foi despertado pelo guarda do parque, que saiu pensativo. Com quem estivera sonhando aquele homem que ele descobrira dormindo debaixo daquela mangueira esquisita, e por que sorria enquanto dormia?

– A gente se depara com cada cristão nesse mundo! – resmungou o velho guarda.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Texto já publicada neste blog, em outro momento, outra formatação e outro título.


Responses

  1. Muito boa essa crônica! Tenho aprendido muito, e, me fez fazer pesquisas que nunca imaginei. Conheço uma amiga que conversa com as plantas. Elas podem não ter alma, mas, devem ter um sentimento peculiar, Se você analisar uma planta, lembra o nascimento de um ser humano. Plantamos uma semente e ao longo dos anos elas crescem e nos dão frutos, folhagem e sombra. Então resolvi fazer uma pequena pesquisa.

    Muitas vezes nos sentimos sobrecarregados, com incontáveis responsabilidades, vontades e pendências que nos acompanham a todo o momento. Essa carga mental pode criar e aumentar o estresse, que nos causa tanto mal.

    Uma prática conhecida no oriente como “banho de floresta” (shirin yoku), trata da saúde mental e física através da imersão na natureza, em todos os sentidos. Um passeio na mata, ou até mesmo em um parque, atentando aos detalhes e belezas da natureza, sua textura, seu cheiro, suas cores, traz paz ao corpo e à mente.
    Além do passeio, falar com as árvores pode ser uma experiência libertadora. As árvores são excelentes ouvintes: tranquilas, confiáveis e que não julgam o que escutam. Falar com elas pode liberar fardos que muitas vezes nem sabemos que existem, mas que carregamos diariamente. O desabafo e a superação que vem com esse processo são fortíssimos elementos para a auto-cura.

    Obrigado amigo Dr. Evaldo pelos novos ensinamentos. São bons ensinos que levamos para nossa vida.

    Um grande abraço e que Deus nos abençoe e guarde.

    Já tomou a vacina?
    Aqui no Rio acabou. Bem, acho que em todo o Brasil. E só Deus sabe quando virá. A preocupação do Presidente é liberar armas. Como se fosse curar e livrar os Brasileiros dessa terrível pandemia.

  2. Muito boa! ❤️


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