Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 26, 2021

UM CONTO DO VIGÁRIO EM 1964

Você, que é jovem, que tal fazer uma busca na internet com a frase ouro para o bem do Brasil? Você descobrirá coisas sinistras, de pura enganação, como as que serão mostradas a seguir, também obtidas na internet.

Poderia dar certo uma campanha em que a população doaria ouro para o bem do Brasil, com o objetivo de ajudar o país a reduzir sua dívida externa, com o intuito de equilibrar as finanças do estado brasileiro? Pode parecer estranho, mas isso aconteceu logo após o golpe militar de 1964.

A campanha foi liderada por jornalistas dos Diários Associados, sob a tutela de Assis Chateaubriand, e teve início em São Paulo no dia 13 de maio de 1964. E assim era anunciada ao povo:  A Campanha “Ouro para o Bem do Brasil” será uma contribuição patriótica do povo brasileiro em todos os quadrantes da nossa amada Pátria para o Tesouro Nacional, objetivando o fortalecimento do lastro-ouro e maior valorização da nossa moeda… com a entrega de suas alianças ou quaisquer outros objetos em ouro. 

Muitos fizeram isso, e houve ainda quem doasse colares, brincos e outros objetos de ouro e até dinheiro do próprio bolso, para ajudar nossa terra a se levantar dos infortúnios vividos no período que antecedeu o golpe militar. 

Veja este relato de um jornalista: Em junho de 1964, eu fui com o meu pai entregar um anel de ouro e rubi e duas alianças de seu casamento para os militares que recolhiam as doações numa bandeira do Brasil, estendida em frente ao Museu Histórico da rua Barão de Jundiaí, SP. Era a campanha do Chatô: Ouro para o Bem do Brasil. Quem dava ouro, ganhava um anel de latão. Não sei até hoje o que foi feito com o montante de ouro, que chegou a uma tonelada e meia só em São Paulo, nem com o dinheiro, pedras preciosas e até veículos que foram doados em muitas cidades do Brasil

Em São Paulo havia três cofres para receber as doações. Uma destinado ao dinheiro em espécie, outro para cheques e um outro para os objetos de ouro. Os doadores podiam entregar suas alianças de casamento, de ouro, e em troca receber uma aliança símbolo de latão com os dizeres Dei Ouro para o bem do Brasil. Segundo os números oficiais, foram entregues quase dois milhões de anéis símbolo.

O montante arrecadado no estado de São Paulo foi de mil e duzentos quilos de ouro e um pouco mais de dois bilhões de cruzeiros. Nas semanas seguintes, muitas outras cidades brasileiras aderiram a essa campanha. As pessoas fizeram filas para doar dinheiro e joias da família, além de suas alianças de casamento. O valor total de todo o país nunca foi divulgado.

O tempo passou, e anos mais tarde começaram a surgir dúvidas sobre o verdadeiro destino desses recursos. Ao final, Brasil quebrado, e os militares promoveram um arrocho sem precedentes, enquanto a desigualdade social aumentava.

A campanha entrou para a história como uma picaretagem. Na década de 1980, Ruy Gouveia (PB) foi denunciado pela Lei de Segurança Nacional por afirmar que o então ministro Delfim Neto havia usurpado todo o ouro doado em 1964.

Ouro para o bem do Brasil. Somente em São Paulo, mil e duzentos quilos de ouro e dois bilhões de cruzeiros. Qual o valor total levantado? O que aconteceu com esse dinheiro?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Excelente crônica! Em 1964 não existia este meio de comunicações que temos hoje. Por isso não me lembro dessa campanha. Fiz uma ligeira pesquisa para poder fazer um comentário sobre esse assunto que me era desconhecido.

    A revista O Cruzeiro informou, em junho de 1964, num balanço parcial, que já haviam sido arrecadados 400 quilos de ouro e meio bilhão de cruzeiros. Ninguém soube da soma final ou do destino desta riqueza, graças à censura da ditadura.

    Só os mais velhos podem lembrar, porque em 2019 já faz 55 anos do feito: um dos maiores estelionatos de nossa história foi lançado pela mídia dominante da época em apoio à recém instituída ditadura militar. Como agora, dizia-se que o país estava quebrado, por culpa das políticas sociais e da corrupção dos governos trabalhistas anteriores. Os poderosos Diários e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand, que reuniam uma cadeia de jornais e rádios por todo o país além da TV Tupi, lançaram a campanha patriótica “Dê ouro para o bem do Brasil!” em apoio ao general Castelo Branco.

    Dê a sua aposentadoria pelo bem do Brasil

    Diferente de 1964, desta vez nem pensaram em cunhar anel ou medalhinha de latão para quem votou em Bolsonaro e apoiou sua reforma da previdência. Mas nem por isso estes devem desanimar. Afinal, vamos todos trabalhar mais tempo e receber bem menos, mas foi pelo bem do Brasil!

    Por Eduardo Meditsch

    Fiz o possível para fazer um comentário a altura dessa brilhante crônica.

    Que Deus nos abençoe e guarde

  2. Que maravilhas, tanto a crônica do amigo Evaldo, como o comentário do amigo Brito.
    Lembro-me do acontecimento; e me fez relembrar um outro fato, até considerado um engano, hoje, para mim.
    Quando adolescente em AB entreguei uma correntinha de ouro para componentes de um circo que procuravam comprar uma lona nova, quando a anterior havia sido queimada. Verdade ou mentira, eu acreditei. Quando meus pais perguntaram sobre a joia, presente deles, falei que havia perdido.
    Até hoje me arrependo! Grande abraço.
    Parabéns a vocês pelos excelentes escritos.

  3. No início da Primeira Guerra Mundial, o governo francês fez algo parecido. A Madame Curie se dispôs a doar suas duas medalhas do Prêmio Nobel, de 1903 e 1911, mas não aceitaram.


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