Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 10, 2021

DESPACHOS/MACUMBAS EM BRASÍLIA

Despacho, nas religiões afro-brasileiras, é a realização de oferendas como pagamento antecipado a Exu pela realização de favores. Os despachos são depositados em lugares como encruzilhadas, cruzeiro das almas, matas, rios, descampados. Se, por algum motivo, algo não possa mais ser usado, deve ser despachado. Comidas rituais são alimentos específicos ofertados a cada orixá, cujo preparo requer o uso de ritual.

Macumba. Esse nome passou a ser utilizado pra nomear as oferendas feitas aos Orixás, sendo considerada por muitos como magia negra. Trata-se de um presente a uma energia divina, para que ela auxilie no direcionamento de uma causa. 

Graças à macumba, muitos escravos fugitivos conseguiam se alimentar enquanto fugiam da senzala. Por terem medo das oferendas deixadas em encruzilhadas, muitos caçadores de escravos e a população de origem europeia no geral não mexiam na comida, que era na verdade uma oferenda de escravos já estabelecidos aos seus companheiros que estavam em fuga. A macumba era, na verdade, uma forma de oferecer alimento para aqueles que estavam enfraquecidos na fuga.

Desde cheguei a Brasília, pelos idos do início de 1972, percebo que, aqui, esse tipo de manifestação é muito comum, especialmente no plano piloto, em toda a extensão dos eixos rodoviários norte e sul, colocados entre as árvores que ali existem.  

Em Stonehenge, livro de Bernard Cornwell que narra a história dos celtas que viveram no interior da Inglaterra dois mil anos antes de Cristo, há uma cena em que o principal feiticeiro de uma tribo responde, quando perguntado se realmente ele teria colocado mijo na barriga dos inimigos, e que o céu iria queimar seu inimigo, e a terra recusaria seus ossos, e até os animais iriam se afastar do fedor de sua morte; que até os vermes e as larvas iriam recusar sua carne pútrida e que iria secar até virar uma casca amarela, e os ventos o carregariam para os pântanos envenenados do fim do mundo, conforme gritara de forma tresloucada para o inimigo.

– Aprendi que a feitiçaria está nos nossos medos, que os nossos medos estão na nossa mente e que só os deuses são reais – respondeu o feiticeiro, baixinho, com voz pausada.

Em três ocasiões estive de frente para um despacho: 1. No centro de saúde, quando puseram um despacho de amarração atrás da cadeira do chefe, um médico boa pinta; 2. No meio da estrada que dava para minha chácara, cerca de 10 galinhas depenadas, prontas para assar, foram colocadas em um círculo, ladeadas por grandes abóboras com um líquido amarelado no seu interior, fechando completamente a estrada. Os carros iam parando na estrada de terra, de um lado e do outro; 3. No retorno que leva à 109 Sul, rua do Beirute, composto por alimentos e cerca de sete ampolas grandes, com um líquido branco dentro (soro glicosado?). Em todos os casos, o final foi feliz. Todos foram desfeitos pelas pessoas em volta.

A feitiçaria está nos nossos medos, e os nossos medos estão na nossa mente. 

Fecho com o voto do relator de Stonehenge.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Falando em despachos, diziam que Areia Branca era o melhor lugar para os macumbeiros. O motivo é que, todas as ruas são encruzilhadas.
    Inicialmente, o significado da palavra macumba era um pouco diferente do atribuído hoje em dia. Primeiramente, a palavra descrevia um instrumento de percussão de origem africana. Podemos dizer que ele era semelhante ao atual reco-reco. Quem tocava esse instrumento era reconhecido como”macumbeiro”.
    Esse instrumento era muito usado por religiões como a Umbanda e o Candomblé. Consequentemente a palavra passou a ser usada para designar rituais religiosos sincréticos de matriz africana, na primeira metade do século XX. Isso aconteceu quando as igrejas neopentecostais e alguns outros grupos cristãos consideravam profana as religiões afro-brasileiras.

    Que Deus nos abençoe e proteja.


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