Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 19, 2021

ANESTESIA, DE EUFANE A LUCIANA

Luciana foi trazida para o hospital às pressas. Estava grávida de gêmeos, e de forma inesperada começou a sentir que a hora do nascimento de seu filho se aproximava, antes da data prevista. Constatada a iminência do parto prematuro, o obstetra tomou, de forma quase automática, as providências de praxe. Centro obstétrico avisado, equipe de enfermagem a postos, anestesista e neonatologista convocados. Em vinte minutos, um casal de recém-nascidos aconchegava-se à mãe, já disputando carinho e alimento.

No ano de 1591, em Edimburgo, Eufane, uma jovem mãe, acabara de dar à luz duas crianças, e tivera a imprudente idéia de pedir que lhe aplicassem algo para aliviar a dor. Por esse ato impensado, foi retirada à força de sua casa, arrastada e enterrada viva. A Igreja da época não admitia que a mulher tentasse escapar da dor do parto, pois assim fora determinado por Deus.

Meyer Friedman e Gerald W. Friedland, em seu livro As Dez Maiores Descobertas da Medicina, relatam: “No Hospital de Londres, construído em 1791, a sala de operações ficava no último andar. Do lado de fora da sala havia um sino; quando se estava pensando em realizar uma operação, tocava-se o sino, e todas as enfermeiras, médicos e ajudantes corriam para a sala de operações e fechavam a pesada porta para que os gritos do paciente não fossem ouvidos. Todos os funcionários do hospital ajudavam a segurar o paciente, que era amordaçado, se preciso”.  O cirurgião, pela falta da anestesia, tinha de ser rápido, alguns conseguindo a façanha de amputar um membro em menos de um minuto.

Somente no ano de 1772 o inglês Joseph Priestley descobriu o óxido nitroso, porém desconhecia suas propriedades anestésicas. Foi Humphrey Davy, farmacêutico, então com dezessete anos, que chamou o óxido nitroso de gás do riso, após inalá-lo e sair às gargalhadas. No ano de 1800, aos vinte e um anos, Davy publicou um livro detalhando as propriedades químicas, físicas e fisiológicas do óxido nitroso. Este produto foi utilizado por Davy em si próprio para aliviar a dor produzida pela erupção de um dente do siso.

A anestesia foi utilizada para fins cirúrgicos no ano de 1842, e o pioneiro foi o Dr. Crawford Long. Neste caso, a anestesia foi feita com éter, naquela época muito utilizado nas folias de éter e do gás do riso. Foi também Crawford Long quem, no ano de 1845, usou pela primeira vez a anestesia em um procedimento obstétrico. Duzentos e cinqüenta e quatro anos separaram a bárbara execução daquela pobre mãe inglesa deste ato anestésico.

No ano de 1847, o médico inglês James Young Simpson, na mesma cidade de Edimburgo, desafiou a Igreja Calvinista de Edimburgo, que se opunha ao uso da anestesia em obstetrícia, ao indicar e realizar procedimentos obstétricos utilizando-se da anestesia. Simpson era obstetra da rainha Vitória. Talvez por isso tenha escapado da fogueira. Ele e a paciente.

Anos depois, Simpson conheceu um produto químico chamado clorofórmio, fabricado pelo norte-americano Samuel Gutrie em 1831. Usou a nova substância em si próprio, e passou a utilizá-la nos partos que assistia. Foi Simpson quem utilizou o clorofórmio para fazer o parto de um filho da rainha Vitória, o príncipe Leopoldo, no dia 7 de abril de 1853. Atualmente, comemora-se o Dia Mundial da Saúde nesse dia. Tal como acontecera com o éter, o uso do clorofórmio foi sendo deixado de lado, devido a seus efeitos colaterais.

O óxido nitroso (protóxido de azoto, gás hilariante ou gás do riso), descoberto em 1772 pelo inglês Joseph Priestley e detalhado física e quimicamente no ano de 1800 por Humphrey Davy, ainda hoje é utilizado pelos anestesistas.

Entre o éter, o clorofórmio e as modernas substâncias anestésicas, passamos por uma substância ainda hoje utilizada, descoberta pelos índios da América do Sul e do Norte. Trata-se de uma mistura de suco de algumas plantas da floresta tropical – curare – que era colocada na ponta das flechas com a finalidade de paralisar o animal atingido. Em 1516 o efeito paralisante do curare foi descrito, mas somente em 1942, durante a Segunda Grande Guerra, o curare foi produzido em escala comercial e passou a ser utilizado como miorrelaxante, destravando os músculos, propiciando melhores condições para o trabalho do cirurgião.

De Eufane a Luciana, cinco séculos, muito trabalho, muita pesquisa, e um fosso escuro onde ecoam os gritos de uma pobre mãe, arrastada de casa e enterrada viva.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Essa belíssima crônica sobre anestesia, me fez lembrar minha bisavó Mãe Joaquina como era conhecida, que era parteira em nossa querida Areia Branca. Até os anos de 1950, ela atendia as mulheres gestantes. Minha mãe falava que ela era uma tranquilidade de pessoa. Havia noites (sempre as mulheres só sente as dores do parto depois das 20:00hs) que ela fazia três partos. E, nunca uma mulher morreu de parto em suas mãos. Até partos que a criança estava laçada com o cordão umbilical. Ela tinha uma técnica de tirar a criança sem a prejudicar. Hoje temos as técnicas da anestesia, os partos cesariano, e, outras técnicas avançadas na ciência médica. O que ela usava era uma panela de água fervendo para esterilizar os lençóis (colocava os lençóis sobre as tampas das panelas).
    Que Deus nos abençoe e proteja


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