Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 24, 2021

A ALQUIMIA ERA DO NETINHO. POR QUE O VOVÔ SE INTROMETEU?

O netinho de oito anos chegou na casa do vovô, eufórico, carregando uma sacola que ganhara de presente da mamãe. Retirou uma caixa grande e se pôs a explicar o seu conteúdo. Ali, tubos de ensaio, pipetas e algumas substâncias químicas para serem usados em experiências alquímicas. Na caixa, avisos de perigo por apresentar riscos químicos, pois poderiam entrar em contato com parte do corpo e causar irritações.

O vovô explicou, com o auxílio do Google, que a alquimia é uma prática de caráter místico, com vários objetivos. A transmutação dos metais seria um deles, com a transformação de metais inferiores em ouro. Outro seria obter o Elixir da Longa Vida, um remédio que curaria todas as doenças. Para isso, os alquimistas teriam que obter a Pedra Filosofal, uma substância mística. A alquimia era praticada pelos árabes, gregos, mesopotâmicos, egípcios e persas. Essa prática exigia conhecimentos de Metalurgia, Medicina, Astrologia, Física e Química. 

Logo o vovô se apoderou do livrete de orientações e convidou o neto para viajar pelo vasto mundo das pesquisas alquímicas. Espalhou o kit sobre uma pequena mesa da cozinha previamente forrada com um plástico e passou a ler em voz alta a relação de produtos necessários aos experimentos que logo viriam. E o neto calado, escutando.

Óleo de cozinha, álcool, uma régua, uma tesoura, um pouco de bicarbonato de sódio, dois copos transparentes de 200 ml e três de 50 ml, vinagre branco, sal grosso, sal refinado, gelo, um pires, uma colher, produto de limpeza multiuso, um cronômetro, alguns cotonetes, leite integral, um ovo, detergente líquido, um pedaço de esponja de aço, uma moeda, um filtro de papel para café, canetas de várias cores, três corantes alimentícios de cores distintas, três flores de pétalas brancas, duas garrafas plásticas de 300 ml, um balão de aniversário, suco de uva, 30 gotas de suco de abacaxi, algodão, um canudo, uma gota de água oxigenada 10 volumes, uma batata crua, um pedaço de sabão de coco, cinco gotas de suco de laranja, cinco gotas de suco de limão, vinte gotas de refrigerante de limão, um pente plástico e papel bem picadinho.

Abriram as gavetas super arrumadas da vovó e começaram a recolher o bicarbonato, o óleo, o vinagre, o sal grosso, o sal refinado, algumas pedras de gelo, e as flores brancas da orquídea da vovó logo foram cortadas com tesoura. Ao final, uma montanha de frascos, vidros com temperos e garrafas se acumulava sobre a mesa. E o nervosismo dos dois era evidente, face ao suposto perigo das substâncias contidas nos pequenos frascos que acompanhavam o estojo (iodeto de potássio, sulfato de cobre, nitrato de prata, hidróxido de prata, hidróxido de cálcio, fenolftaleína) que eventualmente poderiam ser utilizadas.

E começaram a primeira experiência. O material a ser utilizado seria apenas dois tubos de ensaio, uma haste plástica, 30 gotas de água, 30 gotas de óleo de cozinha além de 30 gotas de álcool. O vovô estranhou, mas ficou calado. Ansioso, pega algo aqui, um vidro ali, água de uma garrafa acolá. Nisso, o plástico da mesa foi acidentalmente puxado com força, jogando no chão limpinho todo o material. Eram garrafas abertas, jogando líquidos no chão, ovos quebrados, vidros espatifados, temperos coloridos espalhados, substâncias químicas atiradas para todos os lados.

O vovô, assustado, olhava para o netinho, que apontava para o livrete, onde se lia que aquelas substâncias listadas no início seriam utilizadas nas cinquenta experiências do kit, com cerca de três para cada experimento.

Alquimia, misticismo, Flamel, Paracelso, busca pelo conhecimento. Tudo no chão. Nesse momento, com o maior desprendimento, entra a vovó na cozinha:

– Deu tudo certo?!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Dr. Evaldo
    Muito bom apresentares casos que envolvem crianças, e os fazes muito bem, considerando tua experiência como pediatra, especialmente como vovô que és, apaixonado pelos netos.
    Eu tbm sou…
    Parabéns. amigo conterrâneo! Obrigada pelas crônicas que considero um presente para meus finais de semana.
    Grande abraço!

  2. Meu amigo Dr. Evaldo. Estás inspirado; Tudo isso é para comemorar o dia dos Avós? Eu apaixonado pelas minhas netas, sou apaixonadíssimo. Não tenho palavras para enaltecer suas belíssimas crônicas. Que Deus continue te iluminando para que tenhamos sempre maravilhosas crônicas. Deus nos abençoe e proteja.


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