Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 9, 2021

CARAGO, O ASFALTO BRANCO DA MINHA MENINICE

Nasci e fui criança em Areia Branca-RN. Naquela época era chic ter a rua calçada com carago. Subproduto do sal, porém sem qualquer sabor, a não ser o de uma pedra, esse tipo de calçamento antecedeu o paralelepípedo e, obviamente, o asfalto. Blocos de sal antigo eram espalhados e compactado nas ruas, formando um calçamento de cor cinza claro. Pela cidade circulavam cerca de cinco automóveis. 

As ruas, após o revestimento com esse produto, ficavam com aparência de asfalto, porém de cor cinza claro, quase branco, produzindo um clima melhor, mais fresco. E a meninada, passeando de bicicleta ou em suas brincadeiras, sempre dava preferência aos logradouros revestidos com carago.

À noite, grupos de crianças eram formados aqui e ali, a correr, gritar e se esconder, em suas brincadeiras hoje quase esquecidas. As cantigas de roda surgiam quase espontaneamente, e escravos de Jó jogavam caxangá, vira, bota, deixa o Zabelê passar, assim como a inesquecível lagarta pintada, quem foi que te pintou, foi a velhinha do tempo da areia, puxa lagarta na minha orelha. E as cantigas se estendiam até que a meninada fosse chamada pelos pais.

Também eram comuns as estórias de fantasmas, contadas baixinho, todos com as cabeças juntas, para não perder uma frase sequer. Estórias de lobisomens, de bichos de sete cabeças, de almas penadas e bicho-papão; estórias de vozes ouvidas no meio da madrugada, quando o império da escuridão era desvirginado por elementos branquinhos, da cor de lençóis, que apareciam e sumiam. Uma certeza: eram fantasmas.

Adolescentes brincavam de passar o anel de mão em mão, com aquele final que todos conhecemos, e os namoros eram iniciados ali mesmo, nos olhares fugidios e nos escassos afagos. Pegar na mão era uma glória, e os encontros se sucediam noites após noites, até o grande dia de ir à casa da menina. 

Nas calçadas, adultos e idosos, em grupos, sentados em cadeiras, punham a conversa em dia, falando dos acontecimentos. O vovô não abria mão da sua espreguiçadeira.

Com sua magia extinta pelo progresso, o carago se enraizou em nossas mentes, e quando forçamos um pouco a memória retrofílica, em uma viagem imaginária pelas ruas tranquilas de nossa cidade, logo surge a imagem do nosso asfalto branco, que reluzia aos raios do sol, parecendo fragmentos de espelhos espalhados pelo chão, talvez servindo de mote para “se essa rua fosse minha eu mandava ladrilhar”.

Carago, palavra única para designar um antecessor do asfalto.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Evaldo, como você, estas reminiscências também são minhas! Vivi exatamente como retratas em tua crônica; com uma pequena diferença quando abordas a intenção da brincadeira do ‘passar o anel’. Na época ainda não despertava para esse sentido; só quando Brito, numa das viagens a AB, durante uma peixada na linda Barra, recordou-nos a respeito.
    Mas me fizeste hoje, reacender minhas mais doces lembranças, adormecidas pelas acúmulo de acontecimentos neste nosso conturbado Mundo.
    Grande abraço!


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