Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 1, 2022

O DESENCANTO DE JUDAS

“O desencanto tomou conta do meu coração!”

Culpa, remorso e desespero. Nesse episódio histórico, somos instados a perquirir a causa do desencanto de Judas, que era judeu e acreditava na vinda de um messias, tal como anunciavam as Escrituras.

A Palestina estava submetida ao jugo romano. Essa dominação, sempre contestada, representava insuportável violência contra aqueles que se autodenominavam “povo de Deus”. O exemplo de resistência, em passado próximo, dos Irmãos Macabeus, sustentava a possibilidade de uma nova reação, uma insurreição, sob uma firme liderança. Seria esse papel do messias, ansiosamente esperado?

O apóstolo Judas Iscariotes alimentava a esperança de um grande movimento de libertação. E Jesus de Nazaré, que fazia milagres, ressuscitava mortos, caminhava sobre as águas, multiplicava peixes e pães e atraía multidões, parecia incorporar, sem nenhuma dúvida, o perfil desse libertador. Judas estava encantado. Ecce homo! – Eis o homem!

O convívio, porém, trouxe-lhe decepções: o messias prometido, o salvador, o libertador, não dava sinais de ser um líder revolucionário. Usava seu tempo em gestos de misericórdia, ensinava o perdão como prática amorosa (Atire a primeira pedra…), elevava os humildes, exaltava a caridade, o respeito a todos, sem distinções de etnias.

Dai a César o que é de César! Ora, vejam só! Obedecer, pagar tributo a quem nos tiraniza? Tudo isso culminou com a surpreendente e desalentadora afirmação, para ele, Judas, do Mestre de Nazaré: – Meu reino não é deste mundo.

Não! Esse não pode ser o messias, o libertador. A frustração matou a esperança e, em seu lugar, alojou sentimentos inferiores. É preciso fazer alguma coisa. Na sequência, trinta moedas e um beijo. Estava em curso sua predestinação. 

O resultado foi desesperador. Judas não compreendera que o caminho do messias seria percorrido sob o pesado fardo de uma cruz, e que sua trajetória, em direção ao Gólgota, seria uma via sagrada. Também não se convencera de que o amor perdoa e salva; basta uma palavra, mesmo não se considerando digno (Domine, non sum dignus).

Distanciou-se do grupo e nem pôde observar que Pedro, após a fraqueza da tríplice negação, foi perdoado (Tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei a minha igreja); já não presenciou a promessa feita ao “bom ladrão”, cujo arrependimento o levaria ao Paraíso.

Ignorando que o amor abre os braços, em forma de cruz, e o perdão, sem limites, acolhe o arrependimento, Judas, desesperado, faz seu corpo balançar sob a árvore do destino, pois o desencanto, na tortura do remorso, penetrara em seu coração. Seus ouvidos já não puderam escutar o último perdão:

– Pai, perdoa-lhes; não sabem o que fazem.

Francisco de Assis Câmara, no livro Sob o Signo do Invisível

Integrante dos quadros do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Nota do blog: Os Macabeus lideraram o movimento que levou à independência da Judeia, e que reconsagrou o Templo de Jerusalém, que havia sido profanado pelos gregos. Após a independência, os hasmoneus deram origem à linhagem real que governou Israel até sua subjugação pelo domínio romano em 37 a.C. Wikipedia.


Respostas

  1. Evaldo
    Abriste o novo ano, 2022, com chave de ouro, apresentando esta beleza de crônica!
    Resta-nos aguardar a reação do nosso mestre Francisco de Assis Câmara sobre tua atitude.
    Parabéns!

  2. Como sempre uma belíssima crônica. Mesmo eu quase Padre, nunca li uma Bíblia. Tenho 3 em minha casa. Todas presente de amigos. Acho muito bonito quem a lê. Só que, quem as lê, dizem haver várias interpretações. Por isso, acho que é o motivo de não desejar ler a Bíblia Sagrada. Há várias versões, várias traduções. Ai fica minha dúvida. Até o denominado bispo Macêdo, tambem escreveu uma Bíblia. Bem, deixemos pra lá. Na crônica, fala do enforcamento de Judas, Que ele ficou pendurado e balançando na árvore que escolheu para se enforcar. Me fez lembrar que, outro dia conversando com amigos que se dizem Evangélicos, eles me falaram que, segundo a Bíblia, Judas não morreu enforcado. Segundo eles, a árvore escolhida por ele era num penhasco. Ao se pendurar com a corda no pescoço, o galho quebrou e, o Judas morreu da queda. Alguem pode confirmar isso? Que Deus te abençoe e proteja.


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