Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 12, 2022

A VINGANÇA DO CADÁVER

Rivonaldo tinha um verdadeiro fascínio pelos temas que envolvem a morte. Havia lido que logo depois da morte o espírito se encontraria em estado de perturbação, sem compreender que aquele corpo não mais lhe pertence. Chegava a rir dessas estórias. “Morto não fala nem se mexe”, – não se cansava de repetir.

Rivonaldo estava em processo de treinamento para assumir as funções de maqueiro no hospital da cidade e precisava demonstrar coragem, ser valente. Na primeira semana, todo o seu trabalho foi acompanhar Ortanato, o velho maqueiro em processo de aposentadoria. E o amigo, matreiro, dizia em tom de brincadeira para Rivonaldo:

– Cuidado, rapaz! Você pode ser atormentado pela alma dos mortos que não forem tratados com respeito.

Naquele dia, o primeiro sem a companhia de Ortanato, o jovem maqueiro faria tudo ao seu alcance para não desmerecer a confiança do amigo, que o havia indicado para a função. Queria ser um substituto à altura. E pensou com seus botões, agora adornando uma bata branca: “Medo de cadáver, logo eu?!

Mal acabara de bater o ponto, o maqueiro já estava sendo convocado para transportar um cadáver, que tinha o corpo coberto por um lençol. Rivonaldo saiu da enfermaria cheio de garbo, conduzindo o cadáver de um homem, cumprindo em silêncio o seu primeiro trabalho solo naquele hospital. Caminhou pelos corredores, deu uma volta por trás da capela e se dirigiu ao necrotério, que ficava nos fundos do hospital, ao tempo em que se distraía com o ruído produzido pelas rodas da velha maca. 

Na frieza do necrotério, abriu a geladeira de três gavetas e acomodou o cadáver na gaveta do meio, com todo o cuidado. Minutos depois, dirigiu-se à UTI para apanhar outro cadáver, seguindo de volta pelo mesmo caminho, a mesma concentração no rangido das rodas do carrinho.

Alguns pacientes olhavam o triste cortejo do fundo de seus aposentos. De volta ao necrotério, Rivonaldo abriu a geladeira e escolheu a primeira gaveta, que ficava junto ao piso. Quando estava terminando de colocar o corpo no refrigerador, ouviu um forte grito bem próximo ao seu ouvido, e percebeu que o morto da gaveta do meio tentava rasgar o lençol que lhe cobria o corpo. Tinha uma cor azulada em torno da boca e dos olhos, e se movimentava de forma desesperada.

Nesse momento, uma paciente precisava ser levada com urgência à UTI, e Rivonaldo foi convocado pelo serviço de alto falante. Passados alguns minutos, um servidor da limpeza foi destacado para procurar o novo maqueiro. Ao chegar ao necrotério, o rapaz se deparou com um quadro terrível: um homem pálido, apavorado, aos urros, tentando desesperadamente se livrar das amarras do lençol e sair da geladeira. No chão, envolto em um mar de fezes, vômito e urina, estava o valente Rivonaldo, de olhos esbugalhados, inerte, sem voz, apontando para a gaveta do meio.

Hoje, o quase cadáver trabalha em um posto de gasolina, em Natal, que fica a duas ruas do hospital. 

Rivonaldo jamais apareceu por lá.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

Texto já publicado neste blog, com outra formatação


Respostas

  1. Meio Stephen King


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: