Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 14, 2022

A CARTOMANTE E O SAPO CURURU

A noite chegara junto com o alvoroço herdado da tarde que se fora. Era uma noite quente do mês de julho de 1958. O ambiente era de pura tensão; o apurado da bodega estava na gaveta, e ninguém conseguia encontrar a chave do cofre.

Era um cofre antigo, quase mudando de cor. Era verde claro na frente e verde escuro dos lados. Parecia um velho sapo cururu com o disco do segredo e a entrada da chave em seu peito achatado, parecendo rir daquela confusão.

Procura aqui, retorna ao balcão; vê se está em uma dessas gavetas! Sim, eu sei que já procuraram duas vezes, mas tentem outra vez -, gritava o dono do estabelecimento. Já procuraram na calçada, pros lados do cais? Fechem as portas! Vamos procurar essa chave apenas aqui dentro, resmungou o dono do sapo cururu, digo, do cofre.

A noite já se instalara naquela sauna improvisada, e não havia mais nenhum local da bodega isento de acurada procura. Surgiu então uma voz feminina, vinda da porta entreaberta: o jeito é consultar dona Porciúncula, a cartomante. Sei que ela mora pros lados da Ilha, indo pela Rua dos Calafates. E logo alguém disse que conhecia o local. 

O bodegueiro, apressado, separou cinco mil réis para gratificar a cartomante, juntou um pedaço de fumo de rolo enrolado em papel embrulho, puxou as calças bem acima do umbigo, apertou o cinto e partiu em busca da adivinha.

Ao chegar, o comerciante ficou diante de uma mulher com cara de maracujá da semana passada, usando uma peruca feita de rabo de cavalo, o que lhe dava a aparência de uma habitante das cavernas. Sem nada perguntar, ela disse, de olhos fechados, com voz de cemitério: o que o senhor procura está bem no fundo, no escurinho do olho do furacão, onde se esconde o fogo da libido. Fique tranquilo que o que foi perdido aparecerá com o clarão do novo dia. 

No meio da consulta a porta atrás da mesa foi forçada por fora. A cartomante olhou de lado sem mexer a cabeça e, com o pé, ela a abriu. Era Fiapo, um velho e comprido cão, que deu uma olhada para o cliente, mirou em sua canela, rosnou baixinho e saiu. O comerciante quis pagar, ela não aceitou. Depois mandaria alguém à bodega pegar umas meiotas de cachaça. O fumo ficou em cima da mesa. Seria utilizado em algum trabalho futuro. Terminou virando chiclete.

Mais calmo, o velho comerciante voltou para casa, dormiu o sono dos justos e no dia seguinte foi para a bodega com uma ansiedade difícil de disfarçar. Onde estaria aquela chave? E que estória mais esquisita era aquela da cartomante? Até esquecera o que a mulher com cara de maracujá da semana passada lhe dissera.

No meio da manhã, ao revirar um velho chifre de bode que mantinha escondido como talismã afrodisíaco em um canto da prateleira, a chave do cofre caiu a seus pés. Aos gritos, correu para o sapo cururu, digo, o cofre, e enfiou a chave na fechadura. Rodou o segredo e pronto. Contou os trocados ali depositados, respirou fundo. A paz estava de volta.

Falava-se que a cartomante era um pouco magra; outras vezes ela parecia ser gorda. Depois, descobriu-se que, quando ela estava em Mossoró, era substituída por uma prima. Como ela nunca saía de casa, ninguém conhecia suas reais feições.

Um sapão, digo, um cofre. Uma chave perdida. A cartomante. Tudo resolvido.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Já publicado neste blog, com outro título e outra formatação.


Respostas

  1. Evaldo, que crônica! Impressionada contigo.
    Não consigo pensar que, em algum momento, és capaz de cogitar a possibilidade de deixar de escrever! Demonstras uma necessidade vital de assim agires, para nossa satisfação, através da maneira tão peculiar de criares teus escritos.
    Agradecida, vou continuar vasculhando semanalmente meu entretenimento por aqui.
    Um abraço.


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