Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 16, 2022

FUMAÇA, UM CÃO DE TERRAS ÁRIDAS

Um cãozinho vira-lata de ar circunspecto e olhar sereno, de pelo cor de mel,  circulava pela Rua da Frente quase todos os dias. Tinha um corpo fino, alongado, e ar de nerd brincalhão. Naquela época os nerds eram conhecidos como cdf. Fumaça foi o nome escolhido pelo pessoal que frequentava a rua mais movimentada de Areia Branca, à beira do rio, para aquele cãozinho de nove meses de vida – uma vida marginal, quase bandida, é verdade.

Pela manhã Fumaça frequentava o mercado público, ganhando dos comerciantes um pedaço de carne como brinde. O mercado era reduto de alguns cães vadios que, em grupos, atrapalhavam os negócios, atropelando e irritando clientes e comerciantes. Fumaça não entrava. Chegava junto à porta do meio, com seu rabinho em reboliço, e com cara de pidão disparava um olhar enigmático para os comerciantes. Mais tarde essa mirada fatal viria a ser conhecida como olhar 43. Era o bastante para pegar seu naco de carne, fazer um olhar de agradecimento – um olhar mirando o chão – e se retirar. Vez por outra Fumaça tinha que defender seu café da manhã do ataque dessas gangs caninas, momento em que se agigantava.

Naquele dia, sentindo-se meio nostálgico, saiu do mercado, deu uma volta na pracinha, dirigiu-se à entrada do Beco da Galinha Morta, contemplou sua imensidão – pareceu sorrir -, passou ao lado da igreja e ficou sentado no patamar, fitando rio para os lados de Barra e Pernambuquinho. Jamais prestara atenção ao manguezal, do outro lado, moldura natural daquela aquarela.

Fumaça nunca entrara na igreja, mesmo quando a porta estava escancarada. Muitas vezes teve vontade de entrar em uma canoa, mas tinha medo de não ser compreendido. Com a maré seca, nem pensar. Como andaria pela lama, ao desembarcar em Barra? Mas naquele dia percebeu que as forças da natureza pareciam conspirar a seu favor. Agora a maré estava cheia, e um imenso espelho se estendia de uma margem à outra, parecendo não ter fim, tentando engolir o manguezal. 

Fumaça chegou próximo à canoa, lançou mais uma vez aquele olhar enigmático que tantas vezes funcionara no mercado público, e foi atendido. Junto com três pessoas, o cãozinho esforçava-se para ver tudo. E sua visão de cachorro, no meio do rio, não prometia grandes feitos, já que o olfato era o seu sentido fundamental. E feliz, de pé, na proa, com as duas patas dianteiras abertas, o peito estufado, quase se jogando ao rio, avistou a igrejinha da Barra, cercada de uma areia limpinha e granulosa. Anos depois essa imagem seria imortalizada em Titanic, filme a que Fumaça não assistiria.

Do outro lado do rio, foi o primeiro a descer. Jogou seu velho olhar de agradecimento para o canoeiro e saiu andando, sem qualquer sinal de pressa. Tudo era novidade. Até que à tardinha o céu escureceu, e ele se abrigou à sombra da igrejinha. Fumaça achou estranho tudo aquilo, pois nunca vira a tarde escurecer de repente. Logo o céu foi bombardeado por fortes rajadas de luz, seguidas de estrondos ensurdecedores. De repente, parecia que o céu se rasgara, deixando escapar muita água. O cão acomodou-se ao lado da igrejinha, e ficou admirando todo aquele quadro, com seus olhinhos de bolas de gude. 

Resolveu ficar ali, e tentar defender a pequena igreja daquela intempérie que não conseguia decifrar. O inimigo era poderoso; cuspia fogo e tinha rugido de dragão. De repente, viu uma imensa cobra branca, transparente, que aumentava de tamanho e volume, serpenteando de forma dissimulada pelo canto da parede, ameaçando invadir a igrejinha. Fumaça encrespou seu pelo, esbugalhou os olhos, expôs seus poderosos caninos, grunhiu forte e partiu em direção àquele animal estranho, transparente e frio, e durante alguns minutos travou uma batalha de vida e morte contra o inesperado inimigo.  Minutos depois, exausto, sentou-se e admirou o chão molhado. O inimigo fora vencido. Não sabia como, mas desaparecera.

Fumaça nunca vira uma chuva. Jamais havia visto um filete d’água. 

E terminou seus dias dormindo ao lado da igrejinha de Barra.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado no blog Era Uma Vez em Areia Branca – areiabranca.wordpress.com


Respostas

  1. Muito legal! Fiquei com vontade de ver foto da igrejinha!

  2. Contos da Salinésia. Esse poderia ser o título da sua série de recordações no blog Era uma vez em Areia Branca.

  3. Lamentavelmente, em Areia Branca, a Rua da Frente, o “Beco da Galinha Morta”, e tantas outros, entre eles, também as praças, ficaram vazios em face da violência. Passear e conversar por esses lugares de nossa cidade nesta terceira década do século XXI é arriscar-se a ser abordado por um indivíduo, geralmente numa moto, e ser assaltado, com grandes chances de sofrer um tiro e morrer. As calçadas estão vazias. Já não se vê, como antes, pessoas conversando no final da tarde na porta de suas casas, à sombra, pelo mesmo motivo da violência nas praças e nas ruas. Os bandidos invadem a sua residência. E o pior é que as pessoas, dada à grande frequência dos delitos e crimes, parecem, absorveram isso como algo corriqueiro e normal. Quando se reclama desse tipo de violência, de forma desinteressada, ninguém dá atenção, exatamente pelo fato de ser tão comum.

    O que posso acrescentar ante o exposto é que isso é muito triste, tristíssimo… Não sou da cidade velha, do seu tempo, mas a cidade do meu tempo, dos anos 80 e 90 do século XX, ainda tinha um certo grau de ares românticos e — por que não dizer? — também era um tempo bucólico.

    Tudo isso morreu, Dr. Evaldo. Claro que muita coisa ainda vive dentro de nós, sobretudo no íntimo daqueles que são escritores, como o senhor. Porém, na realidade atual, a Areia Branca antiga está morta. E isso me dói demais.


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