Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 6, 2022

PERDIDOS NA TORRE

A lancha de Luiz Cirilo zarpou de Porto Franco lotada de passageiros. Percebia-se um estado de euforia contagiante entre as pessoas; a maré, com seu ventre murcho rasgado pela hélice, demonstrava evidentes sinais de  perda de sua majestade de sizígia.  Entre os passageiros, um casal, nascido e criado em Porto Franco, tentava disfarçar seu semblante de intensa ansiedade. Era a primeira viagem para um lugar tão distante. Talvez uns quinze quilômetros.

O barco estacionou de forma suave. Desconfiado, o casal esperou que todos saíssem. Deram uma olhada para os lados, disfarçaram e deixaram a lancha. Era uma tarde quente de agosto, e a cidade apresentava uma agitação quase convulsiva.

Já na rua, os dois admiravam a beleza da praça em frente. Dali, esticaram um olhar desconfiado para o lado esquerdo, depois de uma última olhada para Porto Franco, agora quase invisível, de tão distante. Seguiram no rumo da Rampa, caminhando na rua, ao lado da calçada alta. 

Passaram ao lado da igreja sem se deter, e avistaram uma pracinha, tomando as precauções de praxe. À esquerda, o Beco da Galinha Morta exibia ares de mistério. Enfim, uma pracinha repleta de gente em torno de barracas coloridas, com cara de festa, dispostas em um grande quadrado ocupando a frente da prefeitura e a parte de baixo da Rua do Meio. No lado direito do Palacete Municipal, uma roda gigante encantava crianças e adolescentes.

O casal entreolhou-se, concordando que a cidade estava em clima de festa. A noite já se aproximava, e as barracas acendiam suas luzes preparando-se para o movimento noturno. Encaminharam-se para a  igreja, ao perceberem que muita gente para ali se dirigia. 

O evento religioso – última novena – foi movimentado, com o cheiro de incenso tomando conta do quesito odores. O casal não sabia que o turíbulo era comandado por Chico Brito, menino sangue bom. Ao final, os dois perceberam uma escada e, para fugir do burburinho da saída, resolveram subir as escadas, curtindo cada degrau, cada dificuldade. Mais tarde, na semi-escuridão, chegaram ao topo da torre, e tentavam decifrar o código sonoro dos mosquitos e dos grilos. Ao longe, pousada em uma viga, uma coruja os observava. Ou ela queria o grilo?

A música alta dos alto falantes, o barulho das pessoas; tudo isso despertou a vontade de deixar o interior da igreja. Tentaram sair, mas encontraram as portas fechadas. No escuro, acomodaram-se no coro, de onde contemplavam o altar e as laterais do templo. Ficaram ali por algumas horas, com ligeiros cochilos reconfortantes.

Já era alta madrugada, imaginaram. A cidade estava às escuras, e o silêncio reinava fora e dentro da igreja. De repente, um barulho os despertou de um gostoso sono. A porta da frente estava sendo forçada com insistência pelo lado de fora. Minutos depois, perceberam que a porta havia sido destrancada com força, e dois homens entraram sorrateiramente, fechando-a logo após a passagem. 

Na semiescuridão, os homens se dirigiram para o altar. Estabanados, correram o olhar em torno e se dirigiram para um local onde estava um barquinho branco, com a imagem de uma santa de pé em seu convés. O casal, no coro, com os pelos eriçados, parecia não acreditar no que estava para acontecer: um dos homens retirou uma madeira grossa que trazia junto ao corpo, presa ao cinto, e se preparava para quebrar a imagem.

Bem posicionados no coro, o casal começou a bater nas cadeiras com força, e a movimentar alguns instrumentos de percussão colocados em um canto, sinais de alguma apresentação musical . O barulho era intenso. Enquanto ele agitava um tamborete, ela batia nos instrumentos, jogando-os no chão. Os ladrões, apavorados, deixaram a igreja em correria.

O casal, exausto, dormiu o tempo que restava daquela agitada madrugada. Pela manhã, ao primeiro sinal de que a movimentação de pessoas recomeçava, deixaram a igreja aliviados. Não esperariam pela procissão marítima, que sabiam belíssima e cheia de significados. Retornaram a Porto Franco cedinho, novamente clandestinos na lancha de Luiz Cirilo.

Tudo isso sem um miau sequer, e sem machucar suas patinhas. Ah, e sem cachorros.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Respostas

  1. Quanta imaginação, conterrâneo Evaldo!
    Senti-me no lugar dos espertos bichinhos; e muito saudosa pela certeza de não me fazer presente, este ano, à mais significativa festa de nossa cidade Areia Branca.
    Mas, VIVA NOSSA SENHORA DOS NAVEGANTES!
    Grata Evaldo, por mais uma bela crônica!


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