Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 8, 2017

MEU PRIMO FAMOSO

Trago comigo a visão quase infinita das veredas.

Comigo, a cor das várzeas mais distantes.

Conheço, na secura desse chão, o esconderijo das nascentes.

Do sol, a lembrança de seus raios no morrer das madrugadas.

De Pedrinhas, Casqueira e Ponta do Mel,

a visão mais justa, mais real de um bravo povo.

Das salinas, o cheiro da maresia e o branco que ofusca.

Dos raros calangos, a visão do susto e da fuga desabalada;

finjo que perco a busca, ao sabe-los tão escassos.

Já senti de perto a fúria do vento quente em noites de verão

e vi os raios desvirginando a noite que, aflita,

tentava esconder-se no outro lado do escuro.

Da família Scolopacidae, migrei para as praias potiguares

junto com o tempo, quando ainda novos, eu e ele.

Sou o Maçarico de Várzea, o fiscal alado das falésias.

Mas tenho um primo importante, que frequenta os campos de futebol de quase todo o Brasil. De família nobre – Charadriidae -, é famoso em toda a América do Sul e faz parte do folclore em diversas regiões.

Em seu voo magistral, lembra um avião de combate. Traz esporões ósseos no ângulo de suas asas, lembrando armas de guerra. É um sujeito que defende seu território, não importando em provocar rixa com elementos de qualquer espécie que habitem a mesma campina. Seu nome, Quero-quero – Vanellus chilensis – também conhecido por tetéu e espanta boiada.

Quero-quero no ataque – internet

Após um ataque de quero-queros em um estádio de futebol, o chefe do bando foi entrevistado, e desabafou: Atacamos, sim. Nós moramos aqui, e tivemos nosso espaço invadido por esse grupo de jogadores que, vez por outra, ameaçam destruir nossas moradias. Eles pisam com essas chuteiras cheias de cravos, arremessam bolas em alta velocidade e ainda se jogam sobre nossas moradias, escorregando, seja simulando faltas inexistentes seja comemorando simples gols. Eles não ganham um dinheirão para isso? Alguns chegam a tirar a camisa do time e jogam sobre nós. Por isso atacamos.

Maçarico de várzea; primo pobre do quero-quero, que se exibe sob os flashes nas arenas de futebol. Assim, defendem seu território com seus voos de guerra.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 1, 2017

MONTSERRAT, O MOSTEIRO PERTO DO CÉU

Madri, capital da Espanha. Uma discutível obra arquitetônica construída na encosta de uma montanha chama nossa atenção a quarenta quilômetros da cidade. É o Valle de Los Caídos ou Abadia da Santa Cruz do Vale dos Caídos, gigantesco memorial franquista que consta de uma basílica e uma abadia, erguidos entre os anos de 1940 e 1958 em memória dos nacionalistas mortos na Guerra Civil Espanhola (1936/1939).

Barcelona, cidade espanhola, capital da comunidade autônoma da Catalunha. Em seus arredores fica o Mosteiro de Montserrat (Abadia de Montserrat), que abriga a imagem da padroeira da Catalunha. Esse conjunto arquitetônico foi construído na Idade Média ao redor da gruta onde teria sido encontrada a imagem de Nossa Senhora no ano de 880.

O Mosteiro de Montserrat localiza-se no Monte Serreado – um maciço que se eleva bruscamente e seu cume é conhecido como São Jerônimo. As formas rebuscadas da montanha são o resultado de um processo geológico de milhões de anos, formando enormes paredes e blocos arredondados de conglomerado de argila rosa. Cavernas, abismos e barrancos fazem parte do interior dessas estruturas. Este monastério beneditino abriga em seu interior a Biblioteca de Montserrat, que ocupa espaço central no recinto monástico, sendo o maior equipamento do gênero em um monastério beneditino.

Biblioteca – foto internet

Visitando Barcelona, nosso grupo alugou um ônibus para conhecer e Mosteiro de Montserrat. A subida impressiona pelo ângulo de inclinação, e nos amedronta. Somente motoristas experimentados devem fazer aquele trajeto, por que exige conhecimento e técnica do condutor. Há momentos em que imaginamos que o ônibus não conseguiria vencer aquela subida tão íngreme. E a volta é muito pior, disse o motorista.

Já embaixo, alguns motoristas conversavam em particular. Aproximei-me em um sem-querer-querendo proposital e ouvi quando um deles falou:

– Mandaram o Pepe com aquele grupo? Mas ele nunca conduziu um ônibus até o topo.

Naquele momento entendi por que o ônibus, perdendo força, parou logo depois da metade da subida e ameaçou descer, exigindo uma freada brusca e uma retomada perigosa.

Vale dos Caídos e Mosteiro de Montserrat. Duas emblemáticas estruturas arquitetônicas.

O Vale dos Caídos, para reflexão sobre a estupidez.

Abadia de Montserrat, cultura, encantamento e paz. Talvez também por isso faça parte do roteiro inicial do novo livro de Dan Brown – Origem.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 24, 2017

LÍCIO, UM FILÓSOFO

Lício trabalha como faz tudo na casa de um amigo aqui em Brasília, e vez por outra emite sinais de sua luminosidade filosófica. O rapaz corta a grama, faz reparos na pintura das paredes, troca luminárias, limpa a piscina, mantém aguadas as plantas.

– Lício, vá ali na banca de revistas comprar este jornal, por favor. É este jornal.

E o dono da casa mostrava em sua mão a edição do domingo anterior.

Quinze minutos depois, sentado no quintal, o dono da casa percebeu que Lício trazia nas mãos um jornal volumoso, bem diferente dos finais de semana anteriores. Lício, diligente e proativo, falou:

– Eu ia comprar um jornal, mas quando vi um aviso pregado no mostruário informando que esse jornal aumentaria de preço a partir de segunda-feira, aproveitei e comprei logo três, para economizar. Fiz bem?

Em outro momento, o filho do dono da casa, estudante universitário, dirigiu-se à biblioteca para terminar um trabalho e queria colocar um pensamento de um filósofo alemão do qual nem o nome lembrava.

Ligou para Lício e pediu que ele fosse ao seu quarto. Em cima da bancada estava um pedaço de papel bem pequeno onde havia escrito um pensamento, uma frase.

Lício retrucou com seu jeito todo especial de ser:

– Jairo, eu rasguei o papel e já pus no lixo, lá fora. Mas eu lembro mais ou menos o que estava escrito: “Quem fala demais dá bom dia a cavalo”.

O universitário pensou um pouco, riu da esperteza do empregado e conseguiu formatar a frase por inteiro: QUEM EXAGERA O ARGUMENTO PREJUDICA A CAUSA, do filósofo alemão Friedrich Hegel¹.

E continuou esboçando ar de riso, enquanto agilizava o seu trabalho da faculdade.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

(¹) Friedrich Hegel (1770-1831), filósofo alemão, foi um dos criadores do sistema filosófico chamado idealismo absoluto. Foi precursor da filosofia continental e do marxismo.

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 17, 2017

AZEITE DE DENDÊ EM PORTUGAL, um imbróglio

Larbos, médico especialista em uma delicada área da eletrofisiologia do coração, foi para Portugal curtir suas férias que, ao final, mostraram-se maravilhosas. Por oportuno, informo que o cidadão é baiano da região de Ilhéus.

Em Coimbra, o médico baiano reservou um dia inteiro para visitar, junto com a família, a Universidade. Embora conhecedor de boa parte das grandes cidades do mundo, extasiou-se com o que viu, da estrutura universitária à alegria austera de seus alunos. Como ponto alto desta visita, Larbos conheceu a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, cuja construção concluiu-se em 1728, sob o patrocínio de D. João V, adotando a designação de Biblioteca Joanina, construída para exaltar o monarca e a riqueza do império, em especial daquela oriunda do Brasil. É a maior e a mais rica biblioteca universitária de todo o mundo lusófono.

Foto internet

À noite, seguindo uma programação feita no Brasil, Larbos dirigiu-se para jantar em um restaurante de renome, onde degustaria um prato de bacalhau premiado, sempre citado em rodas de discussões gastronômicas, um dos hobbies do médico baiano.

Logo, um garçom, aqui conhecido como empregado de mesa, entre idas e vindas, dirigiu-se à mesa para mais uma rodada de antepastos e bebidas. Foi nessa hora que o imbróglio teve início. Por favor, traga-me o azeite de oliva – falou o médico.

– Senhor – retrucou o empregado de mesa -, todo azeite é de oliva. A planta dá a azeitona e da azeitona é extraído o azeite. Azeite > azeitona.

– Não é bem assim – falou o médico. Na Bahia nós temos o azeite de dendê.

– Nada que vier de outra planta, que não a oliveira, produz azeite, e sim óleo.

Foi difícil segurar o médico baiano, que solicitou fosse trocado aquele atendente por alguém mais cortês.

Azeite português. Óleo de dendê. Cada um com seus benefícios à saúde.

EvaldOOliveira

Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Wikipédia: Azeite é um produto alimentar produzido a partir da azeitona, o fruto da oliveira.

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 10, 2017

VIDA DE MÉDICO, um emaranhado de emoções

Trinta e dois anos de atendimento em unidade básica de saúde, e outros tantos vividos em consultório particular. Ao longo de todo esse tempo, marcas de experiências que engrandecem, e momentos de pura emoção. São muitos esses pontos, mas vou ficar com três, apenas.

O primeiro, no internato, sexto ano do curso de medicina. Participando do Crutac (Centro Rural Universitário de Ação Comunitária), na cidade de Santa Cruz-RN, como formando da UFRN, com outros quatro estudantes; o ano, 1971. No ambulatório, sentada à minha frente, uma senhora de cabelos grisalhos, de ar sereno, assim se expressou:

– Doutor, toda vez que me abaixo a mãe do corpo aparece; quando me levanto, ela se encanta. Um sintoma narrado em forma de poesia.

Tratava-se de um prolapso uterino contado da maneira mais bonita que até hoje escutei, e dito por uma pessoa simples de uma cidade do interior.

O segundo aconteceu durante minha residência de Pediatria no Hospital da L2 Sul, hoje Hmib – Hospital Materno Infantil de Brasília. Por volta da meia noite de um sábado, atendi um senhor muito nervoso, com uma criança junto ao peito.

– Doutor, fui visitar meu filho agora à noite e descobri que ele piorou muito. Veja, ele está verde!

Ao exame físico, intensa icterícia. No calor da madrugada, optamos – eu e meu preceptor – pela realização de uma exsanguineotransfusão, que consiste na troca lenta e sucessiva de pequenas frações do sangue do bebê por sangue compatível. O pai concordou prontamente em doar o sangue para substituir que seria utilizado, e o procedimento foi realizado madrugada afora. No dia seguinte, fui chamado para explicar para a polícia – no rol de entrada – o que havia acontecido com aquela criança, sequestrada de um hospital de Taguatinga. Após os esclarecimentos do sequestrador, este voltou no carro da polícia prometendo trazer seu filho verdadeiro. O fato é que na noite anterior havia confundido seu filho com a criança do berço vizinho, e a levou para ser atendida em nosso hospital. Imbróglio desfeito, o homem retornou ao hospital onde se encontrava internado seu filho, comprovando que a criança estava bem, e de alta. No nosso hospital, a criança com icterícia evoluiu muito bem e recebeu alta dias depois. Aqui, uma criança foi salva por um ato inusitado.

O terceiro foi aquele jovem chamado Oruam, trazido ao meu consultório por seus familiares como um paciente esquizofrênico com grande potencial de risco. Ao entrar, percebi nele um ar contemplativo, de serenidade. Pedi que os familiares se retirassem e seu rosto pareceu encher-se de paz. O jovem expressou-se com voz pausada, cheio de confiança:

– Doutor, eu apenas quero viver o meu sonho, e eles chamam isso de esquizofrenia. Tive que conter uma lágrima.

Três casos da minha prática clínica. Três emoções que resistem ao tempo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 3, 2017

ARQUITETOS E RESTAURADORES

Os arquitetos têm a chance, assim como os pintores, de um devaneio artístico em suas obras, ora criticando os poderosos do momento e outras vezes inserindo em suas obras um detalhe inusitado, um grito calado, uma mensagem subliminar.

Em Dubrovnik, uma bela e bem conservada cidade medieval, fomos visitar um edifício onde funciona a primeira farmácia do mundo, desde 1317. Caminhando por seus corredores, uma coluna ornamentada por rostinhos sorridentes, quase angelicais. Ao apurar a visão, nos damos conta de que um rosto com a bochecha inchada tenta se esconder. E que, na finalização dos trabalhos naquelas colunas, o arquiteto teve uma infecção dentária, talvez um abscesso. E ali ficou marcado seu protesto.

No centro da cidade de Reims, capital da região de Champagne, na França, há uma réplica da catedral de Notre Dame. Após a visita à igreja, dirigimo-nos a uma pequena praça logo em frente e passa a degustar o champagne local. Logo, algo atrai sua atenção no portal do lado esquerdo. Você fica em dúvida e sai para

uma olhada de perto. E descobre um anjo sorrindo sem desfaçatez. Aqui, o gozo do arquiteto.

A catedral de Salamanca, na Espanha, construída entre os séculos XVI e XVIII, tem basicamente dois estilos: gótico tardio e barroco. Admirando sua fachada externa, descobre-se a figura de um astronauta que, de forma descarada, nos enche de pensamentos surreais e ideias conspirativas. Nada mais que a ação de um restaurador anônimo que ali deixou sua marca, não sei se de bom ou mau gosto.

Foto de Luís Fernando, angiologista

Na cidade de Freiburg, entre os anos de 1120 e 1230, foi construída uma catedral gótica belíssima. Ao visitar a catedral, você, com um pouco de curiosidade, pode descobrir uma gárgula em posição desconcertante, com a saída da água da chuva disposta em local inadequado. Em Freiburg, mais um caso inusitado perpetrado por um restaurador estressado ou um pedreiro insatisfeito.

Foto de Luís Fernando, angiologista

Em Dubrovnik e em Reims, a marca do arquiteto. Em Salamanca e em Freiburg, a vingança do restaurador.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 27, 2017

UMA CASA E UMA PINTURA

Uma casinha de pedra, simples como sua mais famosa moradora. Dois milhões de pessoas a visitam todos os anos, apesar das dificuldades do acesso. O interessado tem que subir o Monte Rouxinol (Bulbul Dagi) para finalmente ter a quase graça de contemplar a Casa de Nossa Senhora.

Foi para essa casinha simples que São João, alguns anos depois da crucificação, conduziu a mãe de Jesus para finalmente encontrar seus momentos de paz e solidão.

A segunda foto trata de uma simples pintura de coloração escura, sem um visual atraente, que condiga com a importância e o significado que as pessoas dedicam a esse quadro.

Esta pintura refere-se à Virgem Negra de Chestocova, e tem relação direta com o assunto iniciado no primeiro parágrafo deste texto. Após a crucificação de Cristo, a Virgem Maria foi levada para a casa de São João, seguindo posteriormente para a cidade de Éfeso, na Turquia. Junto com alguns de pertences, Maria carregava uma mesinha. Um grupo de mulheres de Jerusalém pediu que São Lucas pintasse a imagem da mãe de Jesus sobre o tampo daquela mesinha. Essa pintura, até por sua simplicidade, permaneceu nos arredores de Jerusalém, sendo levada, no ano de 1382, para a Polônia, via Constantinopla (Turquia). Hoje, é adorada na cidade de Chestocova como rainha e protetora da Polônia. A pintura adquiriu essa tonalidade escurecida devido a um antigo e inadequado trabalho de restauro, pela diferença de pigmentos utilizados nas duas épocas.

Uma casinha. Uma pintura. Dois momentos. Um só significado. A fé.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 20, 2017

FATOS INUSITADOS NESTE MUNDO

Convidei-me para recolher de minhas vivências algumas circunstâncias do rol do inusitado que passaram para o grupo das coisas normais, comuns. Mas não são.

Iniciemos pelo Brasil. Se você visitar a cidade de Areia Branca, no Rio Grande do Norte, vai encontrar na beira do cais uma estrutura abandonada, que serve para acomodar sujeira e elementos de vida noturna duvidosa. Porém, se pesquisar, vai saber que naquele lugar existia a Pracinha do Pôr do Sol, de onde se contemplava o rio, o manguezal e as embarcações. Aqui, a destruição sem justa causa.

O que restou da pracinha

Ainda no Brasil, imagine-se viajando por uma estrada no interior do Ceará e de repente dar de cara com dois pequenos viadutos e logo mais à frente mais dois, e saber que constituiriam, há vinte anos, o anel viário da cidade de Tinguá.

Caminhando pelas ruas de Bratislava, capital da República da Eslováquia, você vai encontrar, em uma calçada do centro, um homem saindo de um esgoto, com jeito de bonachão, e saber depois que essa simpática figura reproduz pessoas e senas comuns da cidade. Homenagem a pessoas do povo.

Saindo de Lisboa com destino à cidade do Porto, norte de Portugal, entramos em uma cidade com um belo portal – não lembro o nome -, onde nos deparamos com uma figura bizarra ornamentando uma praça. Tratava-se de um homem-morcego estranho, no alto de um pedestal, sem qualquer relação com coisa alguma. Uma triste figura isenta de graça e de vida.

Ainda em Portugal, a poucos quilômetros de Aveiro, descobrimos algo estranho e de grande utilidade. São passarelas de madeira, na praia de Costa Nova, que nos conduzem sobre areias branquinhas nas proximidades da praia, por onde se pode caminhar à procura de um lugar agradável que se venha a escolher. Aqui, o inusitado da boa utilização do equipamento comunitário e do dinheiro público.

Saindo da Suíça para a França, aos pés do Mont Blanc, todo o charme de uma bela cidadezinha francesa. Chamonix ainda nos faz rir de satisfação ao percebermos que as figuras no alto da lateral de um prédio são de fato uma pintura. Aqui, a surpresa do belo.

Areia Branca, Tinguá, Bratislava, Braga, Aveiro. Em todas, o inusitado. Em Areia Branca e Tinguá, confirmando a não-regra. Puro desrespeito.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 13, 2017

COISAS DO BRASIL NORDESTE

No Nordeste, a crendice popular é recheada de superstições, estórias de bicho-papão, papafigo, aves misteriosas e seus (en)cantos. No folclore mais pé no chão, lembro de três elementos que conheci na infância, o último de ouvir falar: a lenda da cruviana, a serração da velha e a incelença.

Desde criança sabíamos que a cruviana se materializava como um vento noturno, que vazava das frestas do tempo, trazendo consigo uma aura de mistério e uma vaga sensação de um frio que corria fino pelo corpo, como uma pizza metafísica meio mágica meio mística. Quando pequenos, nas noites de cruviana, um som agudo, fininho, tipo assobio, fazia com que nos encurvássemos ainda mais em nossas redes brancas com cheirinho de quarador.

A serração da velha acontecia normalmente em noites escuras. No Brasil, surgiu no Nordeste no final do século XIX – segundo Câmara Cascudo -, como parte do calendário religioso da Quaresma. De acordo com o folclorista, um grupo serrava uma tábua, aos gritos estridentes e prantos intermináveis, fingindo serrar uma velha, lamentando-se através de um berreiro ensurdecedor.

Na cidade em que fui criança – nas noites de serração -, logo depois que a usina elétrica desligava seus motores, gemidos agourentos surgiam em um crescente, e o som grosseiro de um serrote começava a ser ouvido, acompanhado de um alarido de velório. Então, versos vazavam pela noite:

– Serra o pau e toca o sino. Serra a cacunda do véio Virgino.

Era comum que alguém aparecesse à janela, proferisse algumas palavras plenas de desrespeito e atirasse o conteúdo de um penico sobre o grupo, que respondia com mais gritaria, confusão, xingamentos, excomungos e correria.

A incelença consta de cânticos lamuriosos, com augúrios e bendizenças, sempre acompanhados de versos de improviso. A melodia é triste; algo assim: Uma incelença de Nosso Sinhô… Veste esta mortalha, foi Deus quem mandou. E todos repetiam a mesma frase, em uma ladainha que parecia obedecer a uma melodia, qual um cordel religioso. Em seguida, algo assim: Ó meu pai, vou pro céu, doze anjins vão me levando. De tudo eu vou me esquecendo, só de Deus vou me lembrando. A certa altura uma cantoria diferente poderia ser ouvida: Pelas sete marteladas que Cristo levou na cruz…

Cruviana, serração, incelença. Coisas do Brasil Nordeste.

Evaldo Alves de Oliveira

Médico Pediatra

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 6, 2017

OS MENINOS DA RUA PAULO (*), uma alegoria

Quase todos os meninos tiveram um local para jogar bola, brincar de Zorro, soltar pião ou empinar papagaio. Esse lugar era uma propriedade dos garotos, fosse pela manhã ou à tarde. Sempre havia uma ameaça velada de invasão por outros grupos, geralmente mais numerosos ou compostos por crianças maiores. Quem viveu em cidade pequena sabe muito bem do que estou falando. Lembro de um local que ficava perto da minha casa, chamado Sete Bocas, em Natal, onde um grupinho batia bola à tarde. Dali saiu Marinho, zagueiro da seleção brasileira.

O grund era a comunidade criada pelos meninos da Rua Paulo. Não passava de um pedaço de terra que servia de local para suas brincadeiras, que teriam acontecido no século XIX na cidade de Budapeste. Por serem crianças pobres, o grund era o único espaço que os garotos da Rua Paulo e adjacências dispunham para os seus momentos de lazer.

Organizaram, então, a Sociedade do Betume, e as reuniões do grupo aconteciam no grund. Ali também aconteciam os jogos de péla (ou apenas péla), que era um jogo praticado no passado. Consistia em atirar uma bola de um lado para o outro com a mão, com ou sem o auxílio de um instrumento (raquete ou bastão), que teria dado origem ao tênis.

A Sociedade do Betume¹ foi criada pelos meninos da Rua Paulo, e tinha dois objetivos: manter o betume (o símbolo da sociedade) sempre molhado (mastigavam o betume) e a luta pela defesa do grund. As reuniões do grupo aconteciam naquele local – que correspondia a um terreno baldio -, e eram acertadas na escola, sempre com o sigilo exigido pela seriedade desse tipo de instituição.

No contraponto, havia o grupo dos camisas-vermelhas, formado por uma turma que não tinha autorização para utilizar o grund, propriedade exclusiva dos meninos da Sociedade do Betume. Era ali onde aconteciam os encontros dos exércitos. Os garotos se relacionavam como em uma organização militar, onde havia os mais graduados e os soldados rasos, com suas atribuições específicas.

Face aos desencontros entre os dois grupos, foi acertada uma batalha para definir quem seria o dono do grund, seguindo os padrões dos embates militares, as regras tinham que ser rigidamente seguidas, e quando um grupo fugia do seu cumprimento propiciava ao outro também abandonar o protocolo dos combates, concedendo ao outro grupo o direito de utilizar técnicas não convencionais a partir de então.

Dia marcado para a guerra, com todos os ingredientes de uma batalha normal, com direito a espiões, traidores e informações desencontradas.

E veio a guerra total, com manobras estratégicas de alto risco de ambos os lados. Os camisas-vermelhas invadiram o grund, com seus soldados e suas lanças, ecoando gritos de guerra ao lado de muita movimentação. Ao final, os vencedores assumem definitivamente o controle do grund, com o cumprimento dos protocolos antes acertados.

Aqui, muitas coisas aprendemos em nossos espaços de infância, mesmo na base do meio sem jeito das nossas insipientes instituições.

Grund. A infância com suas lições de organização, respeito e cidadania.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

(*) Os Meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnar, publicação da Editora Saraiva. Tradução de Paulo Ronai.

(¹) Há dois tipos de betume: um escuro, feito de hidrocarbonetos pesados com outros produtos, utilizado como impermeabilizante e no asfalto. O outro, massa de pez, cal, azeite e outras substâncias, que se emprega para vedar (internet).

 

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