Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 20, 2021

ERA UMA VEZ UMA MANGUEIRA FEIA

Jacinto espalhara pela cidade que seu vizinho era ruim dos miolos. Ele percebera que o novo morador da casa ao lado falava com as árvores do quintal. Todos os dias ele ouvia elogios às árvores, e apenas uma vez escutou um grande esbregue, aos gritos, em uma jabuticabeira.

Na cidade havia um pequeno horto florestal, que era visitado por poucas pessoas. As folhas acumulavam-se no chão, e causavam aquele barulho característico quando se andava sobre elas – slash, slash, slash. Naquela tarde, era Angelino visitando o horto pela segunda vez, e caminhava em uma área repleta de mangueiras. Naquele setor só havia mangueiras, e o cenário era bonito. Os frutos brotavam das pontas dos galhos, e o velho bibliotecário – esta havia sido sua profissão – logo percebeu que cada árvore parecia caprichar na apresentação de seus frutos, e os exibia com orgulho. 

Caminhou lentamente entre aqueles grossos troncos, percebendo as claras diferenças entre os diversos tipos de mangas ali presentes, e sentiu saudade de sua infância no sítio dos pais. Parou em frente a uma árvore frondosa, de tronco grosso e casca mais espessa, e percebeu uma diferença, e ficou tentando descobrir o que fazia aquela árvore no meio das mangueiras.

– Por que você fica olhando pra mim desse jeito? Não vê que eu nasci com defeito, que sou uma mangueira doente?

Assustado, Angelino olhou demoradamente para aquela árvore, com uma dúvida: ela havia falado com ele, ou teria sido apenas imaginação? Aguçou os ouvidos, e com ar paternal, correu os olhos por toda a árvore, desde o solo, passando pelo seu tronco; examinou seus galhos e folhas. E, num misto de pai e cientista, falou:

– Não vejo nenhum defeito em você -. E teve a impressão de ter ouvido de volta:

– Se você olhar direito, verá que todas as outras árvores têm mangas em seus galhos, e nos meus há uns calombos ou pólipos junto ao meu tronco. Todos os anos tenho que fazer um grande esforço para que esses calombos murchem e caiam, impedindo o seu desenvolvimento. Não sei mais o que fazer; até minhas folhas são diferentes; as flores, nem se fala!

 Angelino alisou carinhosamente o tronco daquela árvore triste.  Pegou na mão o que ela chamava de calombos e logo percebeu que ali havia um mal entendido.

– Minha filha, você é uma Jaqueira! E uma linda Jaqueira. Esses calombos que você diz ter no tronco são seus frutos que, se você os deixar crescer, estarão entre os mais gostosos deste pomar. Você nasceu e cresceu no meio das mangueiras, o que a levou a pensar ser uma delas. Perceba que suas folhas são diferentes, porque são coriáceas, com consistência de couro, enquanto as folhas das mangueiras são lanceoladas, parecidas com a ponta de uma lança, embora também tenham consistência coriácea, dizia Angelino quase gritando, de tanta euforia. 

Já era quase noite quando Angelino foi despertado pelo guarda do parque, que saiu pensativo. Com quem estivera sonhando aquele homem que ele descobrira dormindo debaixo daquela mangueira esquisita, e por que sorria enquanto dormia?

– A gente se depara com cada cristão nesse mundo! – resmungou o velho guarda.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Texto já publicada neste blog, em outro momento, outra formatação e outro título.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 12, 2021

COCA-COLA, O ACASO GERANDO REQUEZAS

No dia 8 de maio de 1886, o farmacêutico americano John Pemberton preparou um xarope de extrato de folhas de coca, cafeína e água. Pemberton era distribuidor da French Wine Coca, uma mistura de vinho Bordeaux com extrato de coca. Naquele ano de 1886, ele teve a ideia de produzir uma bebida não alcoólica para venda nos EUA.

Para melhorar o sabor da mistura de folha descocainizada de coca e extrato de nozes de cola, Pemberton acrescentou óleos aromatizantes de limão, laranja, noz-moscada, lima, cássia (canela chinesa), coentro e baunilha. Em seguida, adicionou ácido fosfórico para estabilizar quimicamente o produto. 

No início, o xarope caramelizado era vendido em farmácias para tratamento da dor de cabeça e distúrbios do sistema nervoso. Em 1887, Pemberton vendeu a fórmula para Asa Candler que, em 1892, registrou no estado da Geórgia a Coca-Cola Company. Três anos depois, a Coca-Cola há havia conquistado os Estados Unidos, logo chegando ao Canadá, Inglaterra, Cuba e Porto Rico.

Michael N. Smith e Eric Kasum, em seu livro As 100 Piores Ideias da História, dão outra versão para o negócio. Contam que um fã de refrigerantes na Jacob’s Pharmacy acrescentou por acaso água carbonada a um copo do espesso xarope de Pemberton. O sabor desse engano era tão bom que os fregueses começam a pedi-lo. Pemberton, desprezando as possibilidades não medicinais do seu produto, vende os direitos da receita a outro farmacêutico local, Asa Griggs Candler, que explora seu potencial como bebida festiva.

No Brasil, a Coca-Cola chegaria em 1939, através de Getúlio Vargas, quando baixou um decreto modificando o uso de aditivos químicos em refrigerantes no país. A permissão para o uso do ácido fosfórico gerou discussão, pois pode se combinar com o cálcio no organismo das pessoas e, assim, provocar a descalcificação dos ossos e dentes.

Vasilhames

Coca-Cola. Hoje, esta marca vale mais de 180 bilhões de dólares. O que era para ser remédio, virou a bebida mais popular do mundo. 

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 6, 2021

COMO É QUE UM SCHETTINO DESSES CHEGA A CAPITÃO?

Esse é o título da matéria de Michel N. Smith e Erik Kasum, à página 224 do seu livro As 100 Piores Ideias da História, edição Valentina, sobre Francesco Schettino, o todo poderoso comandante do navio Costa Concordia, no dia 13 de janeiro de 2012.

O navio começou a se desviar do seu curso, rumando em direção às rochas sob as águas que cercam a ilha de Giglio, no litoral da Toscana, Itália. Os passageiros não percebem essa manobra, comum nessas aproximações que o comandante executa para exibir sua maravilhosa embarcação aos habitantes do lugar, ao tempo em que demonstra suas habilidades à plateia em terra.

Nesse perigoso procedimento, o casco do navio esbarra nas rochas e encalha. Pouco tempo depois, começa a fazer água e aderna, ficando quase submerso. O preço dessa irresponsabilidade: 30 mortos a bordo.

Na sequência, o comandante esconde das autoridades o que realmente acontecia no navio, inclusive que o navio estava afundando. Para piorar, abandona a embarcação, descumprindo a primeira diretriz marítima. Segundo informações dele junto à comunicação social internacional, ele justificou que fora arremetido na hora do choque e caíra no mar, e que já havia outro comandante (o imediato) em seu lugar.

O comandante Francesco Schettino foi condenado, em fevereiro de 2015, a 16 anos de prisão efetiva pelos homicídios, abandono do navio e naufrágio, pena confirmada por um tribunal de recurso em maio de 2016.

A irresponsabilidade e a necessidade de aparecer, quando juntas, podem levar ao caos, como neste caso.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 30, 2021

O MICROSCÓPIO E A CURIOSIDADE DE UM HOMEM

Se alguém chamar você de curioso, não se aborreça. Curiosidade deriva da palavra latina curiositas, “desejo por conhecimento”.  A curiosidade é capaz de promover o aprendizado e o desenvolvimento de habilidades.

Na pequena cidade de Delfts, nos Países Baixos, vivia Leeuwenhoek, um negociante de tecidos de 36 anos, nascido em 24 de outubro de 1632. Gostava de brincar fundindo hastes de vidro, formando pequenas esferas. Verificou que, entre algumas dessas esferas formavam-se pequenas lentes de aumento, que ele utilizava para avaliar a qualidade dos fios dos seus tecidos. 

Curioso, teve a ideia de aperfeiçoar seu invento dando um polimento e colocando em um suporte, criando uma lupa. Antes de Leeuwenhoek, o oculista Jaansen havia construído um microscópio rudimentar, em 1591, ao sobrepor duas lentes em um tubo corrediço, porém com resultados inferiores.

Microscópio Jaansen

Exercendo a sua curiosidade, o vendedor de tecidos decidiu examinar seu esperma, descobrindo que nele habitavam animálculos que se moviam com o auxílio de uma cauda. Descobriu que na farinha e na areia havia pequenos animais, que se supunha nascerem de seu meio ambiente de forma espontânea, mas na verdade brotavam de pequenos ovos que eram desovados pelas fêmeas. Naquela época, a teoria da geração espontânea dizia que determinados seres vivos tinham sua formação a partir de matéria orgânica, de matéria inorgânica ou de uma combinação das duas. Em abril de 1864, Louis Pasteur demonstrou a falsidade da teoria da geração espontânea, ao comprovar que esses organismos nascem de germes já existentes.

Leeuwenhoek produziu suas próprias lentes, com um poder de ampliação muito maior que os microscópios da época. Com seu microscópio, pela primeira vez foi possível enxergar e documentar a presença de seres microscópios. Em 1675, ele foi o primeiro a ver e descrever bactérias, células vermelhas do sangue e a vida em uma gota de água.

Leeuwenhoek. Um inventor disfarçado de vendedor de tecidos. O primeiro a ver um espermatozoide, uma bactéria e um vaso sanguíneo com os glóbulos em movimento. De quebra, descobriu que pequenos animais nasciam de ovos colocados pelas fêmeas na farinha. O primeiro a perceber que a vida não surge da mistura de matéria orgânica. 

A microbiologia experimental nasceu em 1683 com Anton van Leeuwenhoek.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 25, 2021

MARIA LEOPOLDINA, uma mulher de Schonbrunn

No palácio de Schonbrunn viveram três grandes mulheres. A figura feminina mais importante foi Maria Teresa Valburga Amália Cristina da Áustria, a única mulher a governar sobre os domínios habsbúrgicos. Após a morte de Maria Tereza, em 1780, Schonbrunn ficou vazio, sendo por duas vezes (1805 e 1809) ocupado por Napoleão Bonaparte.

Sissi foi a imperatriz da Áustria e, após seu casamento com Francisco José I, em 1854, tornou-se a rainha consorte da Hungria aos dezesseis anos. No dia 10 de setembro de 1898 Sissi foi assassinada quando se encontrava sentada em um banco da praça em frente ao hotel Beau-Rivag, no lago de Genebra.

Nascida em Schonbrunn, a arquiduquesa D. Leopoldina de Habsburgo viveu ali até seu casamento com o futuro imperador do Brasil, D. Pedro I, em 1817. A terceira foi Sissi, a Imperatriz (Isabel da Baviera), que foi a imperatriz consorte da Áustria e, após seu casamento com o Imperador Francisco José I, em 1854, tornou-se a rainha consorte da Hungria aos dezesseis anos.

Ao passar por aqui, lembrei dessas três incríveis mulheres e, por que não dizer, de Napoleão.

Aqui, falaremos de Maria Leopoldina da Áustria (1797-1826), que foi imperatriz consorte do Brasil, a primeira esposa de Dom Pedro I, mãe de Maria da Glória, que viria a ser Dona Maria II, rainha de Portugal, e de Dom Pedro II, o futuro imperador do Brasil. 

O casamento com Dom Pedro I, herdeiro do trono do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, foi celebrado por procuração, em Viena, no dia 13 de maio de 1817. Dona Leopoldina partiu de Viena no dia 15 de agosto, desembarcando no Rio de Janeiro no dia 5 de novembro do mesmo ano.

No dia 26 de abril de 1821, o imperador Dom João VI voltou para Portugal, atendendo às reivindicações decorrentes da Revolução Liberal do Porto. Dom Pedro foi então nomeado Príncipe-Regente.

Foi Leopoldina quem assinou o decreto que declarava o Brasil independente de Portugal, nascendo daí uma relação afetiva de Schonbrunn com o nosso país.

Duas semanas antes de proclamar a Independência do Brasil, Dom Pedro conheceu a paulista Domitila de Castro Canto Melo. Sua relação com Domitila abalaria seu casamento e sua reputação na corte. D. Pedro trouxe a amante para o Rio de Janeiro, apresentando-a à corte, conferindo-lhe o título de Marquesa de Santos. Esses fatos deixaram a imperatriz humilhada, levando-a à depressão. 

Maria Leopoldina faleceu no Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, no dia 11 de dezembro de 1826, aos 29 anos. Foi sepultada no Convento da Ajuda, na atual Cinelândia.

Maria Leopoldina nos liga à história de Schonbrunn.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 15, 2021

O ACASO A SERVIÇO DA MACHEZA

Acaso é uma ocorrência, um acontecimento casual incerto ou imprevisível, uma eventualidade, uma casualidade. É assim que o dicionário define essa palavra. E foi assim que aconteceu com o que viria ser um dos principais benefícios à saúde dos homens. Puro acaso.

Na década de 1990 o laboratório Pfizer investiu muito dinheiro em pesquisa, com o objetivo de encontrar um medicamento para tratamento da hipertensão arterial e da angina. Os pesquisadores desenvolveram o citrato de sildenafila na Grã Bretanha, que tinha a propriedade de aumentar a concentração de NO (óxido nítrico) nas células musculares das artérias, favorecendo sua dilatação. Avaliaram que esse efeito poderia dilatar as artérias coronárias, podendo assim tratar a angina do peito. Não confundir o óxido nítrico (NO) com o óxido nitroso (N2O), também conhecido como gás hilariante, precursor dos agentes anestésicos inalatórios.

Pensou-se, então, em um estudo clássico, seguindo um princípio simples. Os pacientes foram escolhidos por sorteio; alguns receberiam comprimidos de citrato de sildenafila e os demais recebiam um placebo. Os pesquisadores logo perceberam que os resultados nas artérias do coração eram quase nulos, decidindo-se então pela interrupção dos estudos.  

Dessa forma, os envelopes que continham os comprimidos que não foram consumidos pelos pacientes foram recolhidos. A maioria devolveu de bom grado seus comprimidos, porém houve um grupo que não devolveu. Revogado o anonimato, constataram que aqueles que não tinham devolvido os comprimidos correspondiam ao grupo que havia recebido o citrato de sildenafila. É que esse grupo havia percebido uma melhora na performance sexual, com ereções duradouras e estáveis.

Testes confirmaram que a substância poderia ser uma esperança para homens que eram incapazes de manter uma ereção por tempo suficiente para a atividade sexual normal. A droga foi patenteada em 1996.  Em 1998 foi liberada para tratamento das disfunções eréteis, sendo oferecida para venda com o nome comercial de Viagra.

Sildenafila. 

O acaso conspirando a favor da macheza. 

“O acaso favorece apenas os espíritos preparados”, teria afirmado Pasteur.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 8, 2021

LAVAGEM DAS MÃOS E A CHACOTA DA IGNORÂNCIA

Semmelweis, nascido em 1818 na cidade de Buda, atual parte de Budapeste, Hungria, formou-se em medicina em 1844, especializando-se em seguida em obstetrícia. Foi  nomeado assistente na primeira clínica de obstetrícia do Hospital Geral de Viena, na Áustria, onde grassava uma terrível epidemia de febre puerperal, que levava à morte uma grande proporção das parturientes. 

Profundamente tocado pelo problema, Semmelweis se lança na busca de uma solução, chegando finalmente a identificar a causa real, e propõe um método simples e eficaz de prevenção. Propôs a lavagem das mãos para médicos e estudantes de medicina com solução de cal clorada (hipoclorito cálcico). As taxas de mortalidade materna tiveram uma queda expressiva; a taxa, que era de 18,3 por cento no mês de abril de 1847, caiu para próximo de dois por cento no mês seguinte. 

Em 1847, seu grande amigo Jakob Kolltschka foi acidentalmente ferido pelo bisturi de um aluno durante uma necropsia e contraiu um quadro infeccioso semelhante aos das mulheres que morriam da febre puerperal, levando-o à morte. Semmelweis associou a contaminação cadavérica com a febre puerperal, concluindo que os estudantes e os médicos carregavam partículas cadavéricas em suas mãos, oriundas das necropsias, para as salas de parto, reforçando suas exigências para lavagem das mãos. 

Apesar dos bons resultados da lavagem das mãos, as condutas de Semmelweis foram contestadas e negadas por seus superiores. O preconceito, de fato, era por conta da sua nacionalidade húngara, e ele terminou sendo demitido por motivos políticos, pois defendia a independência de seu país, a Hungria, do império austríaco.

Semmelweis retornou para a Hungria, onde assumiu o cargo de médico honorário, de pouco prestígio e não remunerado, na enfermaria de obstetrícia do pequeno Hospital Szent Rókus (São Roque), em Budapeste, onde a febre puerperal foi praticamente eliminada depois das práticas por ele preconizadas.

Como nos casos anteriores, Semmelweis virou alvo de chacota por parte dos colegas e acabou sozinho, vaiado e abandonado.

Sua esposa, juntamente com alguns amigos, achava que ele estava mentalmente desequilibrado e, a pretexto de visitar um novo instituto médico, levaram-no para um asilo de doentes psiquiátricos. Quando ele percebeu que estava sendo internado, tentou sair, mas foi contido com violência, submetido a camisa de força e colocado em uma cela escura.

Duas semanas depois, em 13 de agosto de 1865, morreria aos 47 anos, vítima de uma infecção no dedo médio da mão direita, que gangrenou.  

Aqui, a certeza de que o cuidado com a lavagem das mãos salvaria muitas vidas. E poderia ter salvado a sua.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 1, 2021

UMA VISITA CASUAL A D. PEDRO II


Mais uma vez, vamos passear pela história da monarquia no Brasil. Tudo começou com a chegada da família real em Salvador, no dia 22 de janeiro de 1808, quando o príncipe regente, D. João, fugiu da ameaça de invasão por Napoleão Bonaparte. D. João era príncipe regente desde 1792, devido a doença da rainha-mãe D. Maria I. Em 1807, com a morte da rainha, D. João foi coroado Rei do Reino Unido, Portugal, Brasil e Algarves.

No dia 22 de janeiro de 1808 desembarcava em Salvador a família real portuguesa. No dia 7 de março a comitiva chegava ao rio de janeiro. D. João VI, que era rei de Portugal, resolveu retornar ao seu país no dia 26 de abril de 1821, levando consigo uma grande quantidade de ouro e diamantes que estavam nos cofres do Banco do Brasil, deixando seu filho mais velho, Dom Pedro, como Príncipe Regente do Brasil. A independência do Brasil aconteceria um ano depois, tendo como marco o grito às margens do riacho do Ipiranga no dia 7 de setembro de 1822.

D. Pedro I (Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon) foi aclamado imperador do Brasil no dia 12 de outubro de 1822, tendo sua coroação ocorrido no dia 1º de dezembro do mesmo ano. O autoritarismo foi a grande marca de D. Pedro I durante seu reinado, provocando um desgaste com as elites. 

A partir da independência, iniciou-se no Brasil o Primeiro Reinado, que se estendeu até 1831. Os desgastes na relação de D. Pedro I com a elite econômica e política fizeram com que o imperador abdicasse do trono em favor de seu filho, que tinha cinco anos, e retornasse a Portugal, onde morreria quando o príncipe regente tinha nove anos.

Dessa forma, em 1831 chegava ao fim o Primeiro Reinado. A maioridade do príncipe foi antecipada, e com isso ele assume o trono em 1840, pouco antes de completar 15 anos. Com isso, iniciava-se o Segundo Reinado, governado por D. Pedro II, estendendo-se de 1840 até 1889, quando a Proclamação da República determinou o fim da monarquia no Brasil. 

Nascido em 2 de dezembro de 1825, no Rio de Janeiro, Dom Pedro II era filho de Dom Pedro I e da imperatriz D. Maria Leopoldina, que morreu quando o filho tinha um ano.  O seu nome – Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Bourbon – seguia a tradição portuguesa de homenagear seus avós, santos e anjos. Sua formação foi pautada na moralidade, para evitar que ele repetisse os exemplos de seu pai, D. Pedro I, cujas relações extraconjugais provocavam escândalos, abalando a imagem da monarquia brasileira. Sua maioridade foi antecipada, permitindo que ele assumisse o trono com apenas catorze anos.

D. Pedro II em 1875

O reinado de D. Pedro II durou 58 anos (1831 a 1889), e representou uma época de grande prosperidade e progresso para o país. Apesar de suas realizações, foi deposto por um golpe de estado organizado por republicanos insatisfeitos com o regime imperial. O povo, no entanto, não desejava tal mudança.

A Proclamação da República ocorreu no dia 17 de novembro de 1889, e D. Pedro II e a família imperial deixaram o Rio de Janeiro de forma discreta, rumo ao exílio. D. Pedro preferiu ficar em Paris, onde morreria no dia 6 de dezembro de 1891, de pneumonia.

Além da prosperidade e modernização que Pedro deixou ao Brasil, também houve um legado de valores políticos e pessoais, que contribuíram para a fundação dos ideais democráticos brasileiros. Alguns acadêmicos o consideram como o maior brasileiro da história.

A lei que permitiu o traslado dos corpos de D. Pedro II e Teresa Cristina foi assinada em 3 de dezembro de 1920, encerrando o banimento da família imperial. Os caixões foram transportados no couraçado São Paulo. O Conde d’Eu acompanhou os restos mortais de seus sogros, ao lado do filho ainda vivo, Pedro de Alcântara, Príncipe do Grão-Pará.

Os corpos de D. Pedro II e de Teresa Cristina encontram-se até hoje na Catedral de São Pedro de Alcântara, em Petrópolis.

Tumbas de Pedro e Teresa Cristina na Catedral de Petrópolis. Nas pontas estão as tumbas de Isabel (esquerda) e Gastão (Conde d’Eu).

Voltemos, que Maria Leopoldina nos espera.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 25, 2020

VAI, ALMA MINHA – reflexões em tempos de quarentena

 Vai, alma minha. Viaja pelo infinito, onde os deuses olimpianos fizeram suas trilhas, travaram batalhas homéricas e conquistaram suas ninfas. Se perceberes faíscas rasgando o céu azul, são os ciclopes de Zeus zangados com Asclépio. Quem mandou aquele médico maluco reduzir a clientela de Hades?   

Vencedora, conquistarás espaços, posições, posicionamentos; discutirás os temas que afetam a humanidade, sempre amparando a honra e o respeito pelo pensar do outro.

Também encontrarás empecilhos, dificuldades inerentes à luta pelo que achas correto. Vai e tenta convencer. Tens a força da verdade, a disposição dos justos, a visão de futuridade.

Vai, alma minha, com jeito e modos de criança, ajeitando os suspensórios sustentando calças curtas, sem medo dos embates. Segue em frente, a luta te chama; vai e retorna sorrindo.

Vai, alma minha, paira sobre incompreensões e rancores e, qual libélula multicor que um dia foi dragão, fica ziguezagueando pelo sem-fim dos desencontros, dos rancores e das incompreensões.  

Alma minha, vai e, se te desgastares, transmuta-te em acalanto, conforta os infelizes e retorna ao teu ninho para te recompores. 

Vai, alma minha!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 19, 2020

CONFLITOS POLÍTICO-MILITARES NO BRASIL REPÚBLICA

Os estudantes brasileiros, aqui incluídos os que cursam o ensino médio e boa parte dos cursos superiores, desconhecem fatos importantes de nossa história, que influenciam de forma direta o entendimento do que acontece no Brasil, nos últimos anos. Hoje, ferramentas de fácil acesso, como a internet, facilitam um passeio pela história republicana do Brasil. Vamos nos aventurar?

 O regime monárquico existiu no Brasil entre os anos de 1822 a 1889, tendo como imperadores D. Pedro I e D. Pedro II. Houve um desgaste da Monarquia junto à população, que desejava mais liberdades, mais democracia, aliado ao crescente descontentamento dos militares, levando a um desejo de mudança. No Rio de Janeiro, no dia 15 de novembro de 1889, o Marechal Deodoro da Fonseca liderou um movimento militar (golpe) que derrubou a Monarquia e instaurou a República Federativa e Presidencialista no Brasil.

Naquele mesmo dia foi instituído o Governo Provisório, tendo como presidente o marechal Deodoro da Fonseca. O marechal Floriano Peixoto assumiu como vice-presidente. Ficou acertado que o governo provisório deveria dirigir o País até a elaboração uma nova Constituição. Porém no ano de 1891 o presidente renunciaria.

Após a renúncia de Deodoro da Fonseca, assumiu a presidência o marechal Floriano Peixoto. Um grupo de militares que era contrário à ascenção política de civis promoveu a Revolta da Armada. É que Floriano, ao assumir, destituiu todos os governadores que apoiavam Deodoro da Fonseca. Este fato gerou divergências políticas, com um agravante: a Marinha sentia-se desprestigiada em relação ao Exército.

O conflito teve início em 1893, decorridos apenas quatro anos da Proclamação da República. Nessa revolta, navios de guerra da Marinha bombardearam a cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Foi montada a defesa do litoral, que impediu o desembarque dos revoltosos. A rebelião só foi debelada em março de 1894.

Prudente de Morais (1894-1898) foi o primeiro civil a assumir a presidência da República. Em seu governo, Prudente de Morais teve que enfrentar o arraial de Antônio Conselheiro na Guerra de Canudos. Campos Sales (1898-1902) enfrentou a primeira crise econômica da República brasileira. Afonso Pena (1906-1909) promulgou a lei que transferiu a capital de Minas Gerais de Vila Rica (Ouro Preto) para Belo Horizonte. O marechal Hermes da Fonseca governou o brasil de 1910 a 1914. O governo Wenceslau Braz (1914-1918) marcou a entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial, com o patrulhamento do Atlântico.

A Revolta do Forte de Copacabana ocorreu no governo Epitácio Pessoa (1919-1922). No dia 5 de julho de 1922 houve um bombardeio da Fortaleza de Santa Cruz da Barra, que fica no lado oriental da barra da Baía de Guanabara. Dezessete militares e um civil saíram pelo calçadão da praia de Copacabana. Um pouco adiante, os 18 revolucionários foram derrotados em frente à Rua Barroso, atual Siqueira Campos, na altura do Posto 3 de Copacabana. Saldo do embate: do lado dos revoltosos, 14 mortos e 4 feridos. Era uma resposta às oligarquias e ao latifúndio, que se opunham a um ideal de democracia idealizado por setores das forças armadas, em especial tenentes, sargentos, cabos e soldados.

Artur Bernardes (1922-1926) governou sob estado de sítio, e fez uso de seus poderes excepcionais. O governo de Washington Luís (1926-1930) marcou o fim da Primeira República. Foi deposto pela Revolução de 1930.

Nas eleições de 1930 houve um conflito político entre as oligarquias de Minas Gerais e São Paulo. Chegara a vez de Minas Gerais indicar o candidato à presidência, porém os paulistas não abriram mão da candidatura de Júlio Prestes (era fluminense, mas fez carreira política em São Paulo). Este comportamento causou descontentamento entre os políticos mineiros, que passaram a apoiar o candidato da oposição, o gaúcho Getúlio Vargas, governador do RS, que tinha como candidato a vice o paraibano João Pessoa. Júlio Prestes, apoiado pela elite de São Paulo, ganhou a eleição, mas havia indícios de fraude.

Washington Luiz, que seria o último presidente da República Velha, e então no poder, viu-se desprestigiado, mas não dava sinais de que renunciaria. Frente ao impasse, chefes militares do Exército e da Marinha depuseram o presidente, instalaram uma junta militar que, em seguida, transferiu o poder para Getúlio Vargas. Com isso, terminava o domínio das oligarquias no poder, e Getúlio Vargas governou o Brasil de forma provisória entre 1930 e 1934, período este chamado Governo Provisório.  

Em 1934 o próprio Getúlio foi eleito presidendte constitucional do Brasil pela Assembleia Constituinte, com mandato até 1937, conhecido como Governo Constitucional ou Presidencial. 

Em 1937, através de um golpe que contou com o apoio de setores militares, Getúlio Vargas permaneceu no poder até 1945, dando início ao Estado Novo, que se caracterizou como um regime ditatorial. 

Brasil República. Um emaranhado de golpes. O sacrifício do povo, sempre. Há algum tropeço neste passeio pela história do Brasil tirada da internet?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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