Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 15, 2022

FANTASMAS E ALMAS PENADAS

Desde pequeno, dormindo com mais oito irmãos, em redes, vestindo um chambre branco, aprendi a ter medo de fantasmas, lobisomens e de almas penadas. As tais almas perdidas que fugiram do Purgatório. Nas noites escuras, quantas vezes ouvi seus passos de algodão, seus  sussurros; barulhos de almas. 

Lembro de Haroldo, um menino que morava ao lado da nossa casa. No dia de Natal, trazendo na mão o presente que Papai Noel trouxera, ele quase gritava ao descrever como vira o velhinho descendo pela parede. E insistia em que as marcas da descida estavam impressas na pintura do seu quarto.

Não há como esquecer o medo da alma dos gatos que morriam. “À noite elas vão te pegar”, diziam os mais velhos. Lembro, até, de uma missa que algumas crianças encenavam no quintal em homenagem a um gato ou passarinho que morrera.

Na mitologia grega, quando a pessoa morria, Hermes vinha apanhar sua alma para guiá-la até o Mundo Subterrâneo. Para se chegar ao mundo dos mortos, era necessário atravessar o rio Estige. Havia o barqueiro dos mortos, de nome Caronte. Ele exigia uma moeda (óbolo) como pagamento. Contudo, ele apenas conduzia o barco, e era a alma que teria todo o trabalho de remar. Se a alma não tivesse o dinheiro para pagar o serviço, era obrigada a vagar depois da linha do oceano por cem anos, para, depois, ganhar o direito de entrar no barco.

Após ser recebido por Caronte, o morto tinha que passar por Cérbero, o cão de Hades, antes de entrar pelos portões do Mundo Subterrâneo. O cão tinha três cabeças, e adorava comer carne fresca. 

Nas noites escuras, na cidade onde fui criança, os ruídos vindos do rio tomavam corpo de sussurros estranhos, no timbre exato do sobrenatural. Era o ranger da vela de um barco, o movimento de alguém que passava pela Rua da Frente ou o vai e vem das árvores do quintal obedecendo à dança dos ventos. Para nós, crianças, era o som que vinha das trevas. Em especial se fosse naquelas noites em que a cruviana assobiava pelos becos, depois que a usina de luz fazia sua pausa diária depois das dez.

Ainda hoje, só vou ao fundo do meu quintal, à noite, tendo a companhia de Beiçola e de Ressaca, meus dois guardiões caninos. Mas isso sempre me intrigou. Como pode um homem da minha idade ter medo de fantasma e de almas penadas? Confesso que durante o dia eu não acredito em fantasmas nem tenho medo de almas perdidas. Isso só acontece depois das dezenove horas, ou no escuro.

Ao reler o livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos, reencontrei-me com Fabiano, forte, rude, com a aspereza do mandacaru, confessando abertamente seus temores – Estava diante dos juazeiros. Fabiano apressou-se. Sabia lá se a alma de Baleia andava por ali, fazendo visagem? Chegou-se em casa, com medo. Ia escurecendo, e àquela hora ele sentia sempre uns vagos terrores. Ultimamente vivia esmorecido, mofino, porque as desgraças eram muitas. Precisava consultar sinhá Vitória, combinar a viagem, livrar-se das arribações, explicar-se, convencer-se de que não praticara injustiça matando a cachorra. Necessário abandonar aqueles lugares amaldiçoados.

Obrigado, Fabiano, pelo apoio. Unidos no mesmo temor.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Bons tempos em que só tínhamos medo das almas penadas, dos papa-figo, mulas sem cabeça, dos lobisomem, das almas dos dos gatos. Havia até o homem do saco. Tempo, em que, quando andávamos só pelas ruas escuras depois das 22:00hs quando a usina desligava, queríamos encontrar um ser humano na rua para nos proteger do medo. Hoje, é o contrário, preferimos encontrar uma alma penada e outras “marmotas”, do que encontrar um ser vivo. Pois, corremos o risco de sermos assaltados ou baleados, Tambem senti muito medo na minha época de criança. Até dentro de casa eu sentia medo. Muito boa esta crônica. Que Deus te abençoe e proteja.


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