Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 5, 2010

INSTITUIÇÕES DE SAÚDE Planejar é preciso?

Operários desempregados, artesãos sem clientela, intelectuais desinteressados da glória, funcionários públicos expulsos das repartições por falta de cadeiras, bacharéis subjugados pelo peso de uma ciência estéril. Hordas de migrantes vindas de todas as províncias – cheios de ilusões dementes sobre a prosperidade de uma capital transformada em formigueiro – tinham-se aglutinado à população nativa e praticavam um nomadismo urbano desastrosamente pitoresco. Nesse ambiente perturbado de selvageria, os carros avançavam como se fossem máquinas descontroladas, sem se importar com os semáforos, transformando assim qualquer veleidade do pedestre para atravessar a rua em um gesto suicida.

            Foi nesse ambiente em que Ossama, um jovem de 23 anos, resolveu, por pura estratégia de sobrevivência, tornar-se ladrão. Não um ladrão legalista da estirpe dos ministros, banqueiros, homens de negócios, especuladores ou promotores imobiliários, mas apenas um modesto ladrão de rendimentos aleatórios. …Ossama compreendera que, vestindo-se com elegância, à maneira dos larápios do povo sem carteirinha, conseguiria escapar aos olhares desconfiados de uma polícia para a qual todo indivíduo de aspecto miserável era automaticamente suspeito.

            Ossama partiu de uma constatação: os pobres persistiam em sua pobreza por uma razão simples – não sabiam roubar. Foi, então, que teve a ideia de definir seu futuro negócio e sua estratégia: vestiu-se com roupas da moda – um terno de linho bege, uma camisa de seda natural combinando com uma gravata rubra e sapatos de pelica marrom -, adotou como personal trainer um antigo mestre, Nimr, o maior batedor de carteiras que havia na cidade, mapeou os locais em que atuaria, e as pessoas a serem assaltadas – nada de pobres diabos iguais a ele. Vagando, meditativo, pelas ruas do Cairo, bateria as polpudas carteiras de inescrupulosos grã-finos, e sem qualquer tipo de violência. Apenas um imperceptível e levíssimo esbarrão.

Ossama realizara, a seu modo, um planejamento completo de seu futuro e arriscado negócio. É desse modo que Albert Cossery, em As Cores da Infâmia, descreve a odisseia de um jovem que levava uma vida miserável na cidade do Cairo, até decidir tornar-se ladrão.

Palavra da moda, o planejamento ocupa hoje papel importante na implementação e desenvolvimento das ações de qualquer instituição, de grande ou pequeno porte, pública ou privada, comercial ou hospitalar, inclusive de centros de saúde. O que temos, no Distrito Federal, são unidades de saúde com instalações precárias, onde falta quase tudo, de médicos e enfermeiros a materiais e equipamentos básicos, culminando com funcionários desmotivados.

Há necessidade de um efetivo questionamento sobre as atividades de cada unidade de saúde, sua adequação às necessidades locais, com espaço para discussão democrática das reais necessidades da população, com foco sério e criativo nos resultados a serem alcançados. O que se propõe é que as equipes imaginem o futuro, formulem seus objetivos estratégicos, estabeleçam objetivos realizáveis e definam suas metas.

Poderemos pensar em uma mudança que leve ao desenvolvimento ou aprimoramento de abordagens metodológicas que juntem estrutura, objetivos e processos?

Planejar é preciso. Ossama sabia-o bem.


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