Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 20, 2010

UMA AVÓ, criança procura!

Juliana sempre ouviu de sua mãe estórias referentes à sua avó (da mãe). Sabia que ela era uma senhora de cabelos branquinhos, de óculos redondos, cabelos presos, atrás, por uma fita, feito um rabo de cavalo. Sabia que ela preparava biscoitos, doces e um bolo especial, o pé de moleque, coberto de castanhas de caju, e que, aos domingos, a família inteira se reunia em sua casa (da avó). Também sabia que a avó de sua mãe, nos finais de semana, fazia comidas maravilhosas, como galinha ao molho pardo e baião de dois. Ah, e cuscuz, tapioca com queijo de coalho ralado. Juliana ficava com água na boca só em ouvir sua mãe contar as experiências de sua infância, quase todas ligadas à figura de sua avó.

Juliana sabia de cor as estórias que a avó de sua mãe contava, quando ela, em suas férias escolares, tinha o privilégio de passar um mês inteirinho em sua companhia. Eram estórias de bichos perdidos na floresta, que ficavam reclamando a presença da mãe; estórias de seres que saíam pelas matas à noite, em defesa dos animais; passarinhos que eram maltratados pelas pessoas, alguns chegando até a ficar cegos, mas sempre aparecia um ser protetor, uma bruxinha, que curava esses animaizinhos, e eles retornavam às matas.

A avó de Juliana morava no Rio de Janeiro, e ela tinha muita vontade de revê-la, pois ela viera para o seu nascimento e nunca mais havia retornado. Tanto fez que a mãe, a duras penas, dera um jeito de enviá-la para a Cidade Maravilhosa, ao encontro de sua avó. A menina não conseguiu dormir na noite anterior à viagem. No dia seguinte estaria no Rio de Janeiro, e finalmente conheceria sua avó. Queria curtir com ela alguns momentos de ternura ouvidos de sua mãe.

No aeroporto, ansiosa, foi recebida por um tio e uma prima. Sua avó não pudera vir. Estava cuidando de algumas coisas muito importantes, mas estaria em casa para receber a netinha. Meia hora depois de chegar, Juliana pôde, finalmente, encontrar-se com sua avó. Não usava óculos; havia feito cirurgia de catarata e colocara lentes intra-oculares multifocais; os cabelos, vermelhos, mais lembravam um pica-pau assustado; os lábios pareciam inchados, de tão volumosos; a cintura, fina. Mais tarde, por acaso, a netinha percebeu que sua avó tinha uma pequena tatuagem no tornozelo; era um holograma japonês, sem qualquer sentido. Seu assunto predileto era programas de televisão que veiculam fofocas de celebridades. Aquela senhora, com um forte chiado ao falar, seria de fato sua avó?

Logo em seguida, a avó conduziu a neta ao seu quarto, para que ela conhecesse seus amigos do Orkut. “Amigos do Orkut?” Perguntou Juliana a si mesma. Os amigos de sua mãe e de seu pai eram moradores de sua rua, ou freqüentavam a igreja, ou eram do grupo de crochê, ou, finalmente, das mulheres voluntárias que ajudavam na creche da prefeitura. Achou estranho aquele bando de pessoas se comunicando pelo computador, sem jamais terem se encontrado. Sua avó, ao ler as mensagens das amigas, dava fortes gargalhadas, mas Juliana não achava graça nenhuma naquelas mensagens cifradas, com palavras cortadas e expressões estranhas.

Juliana tinha computador em casa, mas seus emails eram trocados entre pessoas conhecidas, com nome e rosto. Por isso, achava estranho que sua avó tivesse apenas  amigos virtuais. Não conhecia seus vizinhos, mas tinha amigos até no exterior.

À noite, sua avó, depois de assistir à novela das seis, das sete e das nove, foi mostrar à netinha seus equipamentos de maquiagem. Era um amontoado de cremes, ceras, pastas, tubos pequenos e grandes, latinhas de todas as cores. E contou um segredo: por causa de uma cirurgia na barriga, usava uma tela de Prolene para fechar um espaço aberto na pele, que havia ficado curta em uma cirurgia para retirada de excesso de pele. Como pode alguém ter excesso de pele e depois ficar com falta dessa mesma pele? Perguntava Juliana a si mesma. Mas a avó lhe disse, falando baixo, que o Prolene é um produto muito utilizado pelos médicos para reconstrução e correção de hérnias, e que depois seria incorporado ao tecido por fibrose (um processo em que o organismo envolve o corpo estranho, na tentativa de isolá-lo).

Dois dias depois, Juliana estava de volta à sua casa, e pensava: “Que avó doidona eu tenho!”.


Responses

  1. Tio Evaldo, essa foi uma crônica da melhor qualidade. Quando você citou a vó olhando o Orkut, me lembrei que a minha vó tem Orkut olha só, mas ainda bem que a minha mãe não!!! Abração Tio!!! Saudades!!!!

    • Matheus, que bom encontrá-lo no éter. Veja a resposta que coloquei abaixo. Serve para todos nós. Um abraço.

  2. Dr Evaldo , ainda estou rindo.
    Parabens
    Esta cronica , ainda me deu mais seguranca de nao me inscrever no face book, como meus filhos querem que eu faca.
    Interessante e que eu sempre digo a eles:
    Sei o e-mail de todos os meus amigos.
    Nao preciso ir para o Face book falar com pessoas desconhecidas ou com pessoas que nao tenho nada em comum.

    Hoje estou fazendo biscoitos para mandar para meu neto, que vive em New York e semana passada disse aos pais que so queria os biscoitos da Vovo.

    Plastica na barriga.De jeito nenhum.
    Muito doloroso.
    E agora quando meu neto vier me visitar, vou procurar parecer o mais possivel com a Vovo que ele gosta de ter.
    Um ABRACO
    Dodora

  3. Cara Dodora, hoje recebi esta mensagem maravilhosa, e peço desculpas ao autor para publicá-la na íntegra:
    “O TEMPO PASSOU E ME FORMEI EM SOLIDÃO”
    José Antônio Oliveira de Resende
    Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.

    Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.

    Ninguém avisava nada, o costume era chegar de pára-quedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.

    – Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.

    E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.

    – Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!

    A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro… Casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.

    Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas

    – e dizia:

    – Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.

    Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite… Tudo sobre a mesa.

    Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também.

    Pra quê televisão? Pra quê rua? Pra quê droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança… Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam…. Era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade…

    Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa… A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos… Até que sumissem no horizonte da noite.

    O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail… Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:

    – Vamos marcar uma saída!… – ninguém quer entrar mais.

    Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.

    Casas trancadas.. Pra quê abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos, do leite…

    Que saudade do compadre e da comadre!

  4. A mensagem e maravilhosa e descreve exatamente o que acontece no mundo de hoje.
    Todo mundo e muito ocupado.
    Nao importa em que cidade ou paiz voce more.
    Poderia falar sobre este assunto por horas e horas, por que e assustador.
    As pessoas, habitos, afazeres, tudo mudou.
    Ainda tenho familia no Rio de Janeiro.
    A maioria primos e primas de primeiro,segundo e terceiro grau.
    E muitos amigos.
    Meu esposo ainda tem sobrinhas e cunhada.
    Mas quando vamos visitar.
    Todo mundo marca e se encontra, na praia,nos bares e restaurantes.
    No final voce voa 9 horas , usa os seus dias de ferias para ver a familia e no final, volta sem saber onde eles moram ou como vivem..
    Procuro fugir deste habito, e nao vou tomar mais o tempo descrevendo como vivo.
    Porem continuo recebendo na minha casa, amigos e a pouca familia que aqui tenho .Usando a minha mesa, e tudo que adquiri nestes ultimos anos de vida .
    Fui criada escutando :Mais vale amigo na praca do que dinheiro na caixa.
    Me recuso a me formar em solidao.
    Um abraco.
    Dodora


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